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Postado em 28 ago 2016 às 15:16
A NBA globalizada, com G de Ginóbili

Guilherme Gonçalves analisa a carreira do maior jogador argentino de todos os tempos

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Por Guilherme Gonçalves

Manu Ginobili goodbye

O torneio olímpico masculino de basquete dos Jogos Rio 2016 se encerrou no último domingo, 21 de agosto de 2016, com a vitória dos Estados Unidos sobre a Sérvia, pelo placar final de 96 a 66 para os, agora, tricampeões olímpicos: ouro nos Jogos de Pequim, em 2008; Londres, 2012; e nas Olimpíadas recém-terminadas. Mais que contar com os protagonistas Carmelo Anthony – único jogador americano a disputar quatro edições de Olimpíadas, já que também esteve em Atenas, em 2004 – e Kevin Durant, melhor jogador do torneio, o ouro americano sobre o time sérvio, liderado pelo capitão Milos Teodosic, tem um pé na América Latina: mais precisamente em Bahía Blanca, solo argentino.

Lembro-me bem que era sábado. Finalzinho de tarde, eu batia bola no quintal entre os intervalos de Estados Unidos x Lituânia e Argentina x Itália. O torneio olímpico masculino da Olimpíada grega, em 2004, chegava ao seu último dia e aquilo tudo era diferente pra mim: o escrete norte-americano jogava a partida preliminar, não o embate mais importante. Silvio Luiz narrava distintamente pela TV Bandeirantes e eu custava a entender como os astros da NBA, pouco conhecidos, mas já admirados por mim, estavam fora da final em Atenas.  O ouro na Grécia ficou com uma Argentina que unia técnica, raça, vontade e um senso coletivo em perfeita simetria: era a primeira vez que assistia Ginóbili atuar. Emanuel no gerador de caracteres da transmissão olímpica oficial, Manu para seus companheiros e compatriotas, apenas Ginóbili para aqueles que o conheciam e passavam a admirar. A Argentina engoliu a Itália na final: já havia vencido Sérvia e Montenegro, ainda um só país e já não mais parte da antiga Iugoslávia, até então a seleção campeã mundial sobre a mesma Argentina dois anos antes, em Indianápolis, solo ianque. Os alas Luis Scola e Andrés Nocioni também destoavam. O primeiro, um rockstar: único de tênis e meias totalmente pretos, cabeleira vasta, um grito a cada cesta. O segundo pela raça, pelos arremessos certeiros e por aparecer em todos os momentos, em todos os cantos da quadra. Mas ninguém chamava mais atenção que Ginóbili. Que jogava. Que regia. Que liderava. Que ajudou a colocar o nome da Argentina na história do basquete mundial com a primeira medalha de ouro do país nessa modalidade – única até agora. Ginóbili e seus companheiros não sabiam, mas a vida de todos eles – e de outros milhares de pessoas – estava prestes a mudar. O efeito do título argentino – aliado ao efeito do amargo sabor do bronze dos Estados Unidos, que devolviam a derrota da primeira fase para a Lituânia -, alterou o curso da década que se seguia para este esporte pela perspectiva americana e, mais precisamente, para a NBA.

O sucesso de outras seleções em âmbito internacional – arrisco-me a dizer que, ao invés disso, o insucesso norte-americano – abriu os olhos dos fãs, atletas, analistas e mantenedores da NBA, algo que liderou dois fortes movimentos: a abertura da liga para os jogadores internacionais e a reavaliação da qualidade do selecionado americano em torneios de seleções. A última parte, primeiro. Os jogadores profissionais da liga americana obtiveram permissão para atuar nos torneios organizados pela Federação Internacional de Basquete a partir da Olimpíada de Barcelona, em 1992. O que se resultou dessa história a gente não precisa falar: o Dream Team dispensa apresentações ou comentários. O Dream Team II de Atlanta, 1996, também garantiu o campeonato olímpico aos norte-americanos, algo repetido em Sydney, já no ano 2000. A situação era que, com o passar dos torneios olímpicos e mundiais, a supremacia dos Estados Unidos era evidente: jogar os campeonatos da FIBA não parecia ser algo tão complicado assim para os atletas que estrelavam seus times na NBA, algo que até os fazia perder grande partes das férias entre uma temporada e outra. A situação começou a mudar com a queda do selecionado formado por americanos na semifinal no Mundial de 2002, realizado em Indianápolis, e se agravou com o amargo sabor da medalha bronzeada em Atenas. Mesmo com as presenças de Tim Duncan, Allen Iverson e Stephon Marbury, o time recheado pelos ainda inexperientes LeBron James, Dwyane Wade, Carmelo Anthony e Amar’e Stoudemire caiu. E feio. Das oito partidas disputadas em solo grego, perdeu três: a estreia contra Porto Rico, outra partida da fase de grupos contra a mesma Lituânia da disputa de terceiro lugar, e a mais doída – a vaga na final diante da Argentina.

A retomada para a supremacia ianque teve início em 2005, com a criação do atual programa da seleção norte-americana de basquete. O lendário treinador Mike Krzyzewski acumulou as funções principais na Universidade de Duke e no time nacional, com suporte de uma comissão técnica fixa, que escolhia uma grande lista de jogadores que seria base para cada ciclo olímpico. Ainda assim, o bronze foi o máximo angariado no Mundial do Japão, em 2006. De volta a Ásia em 2008, Pequim foi a cidade que viu a ascensão americana novamente, naquele que ficou conhecido como Redeem Team: o “time da redenção” conseguiu os ouros olímpicos naqueles Jogos, nos de Londres em 2012, e nos do Rio, recém-terminados, além dos campeonatos mundiais de 2010 e 2014. Saber que poderia perder das outras seleções internacionais liderou os Estados Unidos a outro patamar de preocupação, elaboração e execução de jogo no basquete sobre as regras da Federação Internacional. A necessidade de atuar em alto nível, sob a liderança dos melhores jogadores e, mais importante que isso, com a formação de uma equipe realmente coletiva – e não somente um amontoado de estrelas que se reunia de dois em dois anos para tentar entusiasmar o público – impulsionou a volta dos americanos ao topo.

Todavia, não foi somente o método americano que se mostrava ultrapassado: o nível de atuação de várias seleções internacionais também se elevou. É na NBA onde se joga o melhor basquete do mundo. Então, os melhores do mundo fora da NBA começaram a transpor as barreiras da liga, aprendendo com os melhores e… igualando-os. Atletas nascidos em outros países e que se destacavam em campeonatos ao redor do globo começaram a ter cada vez mais espaço nos Estados Unidos, a ponto de se tornarem estrelas tanto quanto os nativos. E o exemplo de Ginóbili, mais uma vez, também é perfeito para este caso. Ainda com 22 anos e desconhecido do grande público, Emanuel Ginóbili atuava pelo Basket Viola Reggio Calabria na campanha de acesso da 2ª para a 1ª divisão do basquete italiano quando foi selecionado pelo San Antonio Spurs, na época atual campeão da NBA. O detalhe que chama a atenção é que, hoje, Ginóbili pode ser considerado o maior “roubo” da história da seleção anual de calouros: o melhor jogador latino-americano da história, campeão da NBA por quatro vezes, vice-campeão mundial e medalha de ouro olímpico com a Argentina foi apenas a 57ª escolha de 60 selecionados. Mais quatro atletas e ponto: o camisa 20 do time texano nem mesmo seria selecionado.

Ginóbili não assinou contrato de imediato com o Spurs. Por opção, retornou à Itália, ganhou uma EuroLiga – da qual foi escolhido o melhor jogador das finais, em 2001 -, um campeonato italiano – do qual também MVP da temporada regular, em 2001 e em 2002 – e duas copas italianas de basquete: todas pelo Kinder Bologna. Chegou a NBA em 2002, assinando com o único time em que atuou em sua carreira de 14 anos nos Estados Unidos, com status de jogador de sucesso, solidificado pelas conquistas na Europa e com o selecionado hermano. Seu sucesso em aspecto internacional, sua reputação de estrela no Velho Continente e seu jogo impactante já nas primeiras temporadas em San Antonio ditaram uma nova tendência na NBA: o recrutamento de jogadores europeus ou que jogavam naquele continente para atuar nas equipes dos Estados Unidos. Obviamente, Ginóbili não foi o primeiro nessa condição. Antes dele, vários estrangeiros atuaram na NBA e talvez tiveram ainda mais destaque pela lente da história: como não se lembrar, logo de cara, de Hakeem Olajuwon – nigeriano de nascimento, naturalizado americano -, do lituano Arvydas Sabonis, dos então iugoslavos Drazen Petrovic e Vlade Divac, do alemão Dirk Nowitzki, do canadense Steve Nash, do chinês Yao Ming, do russo Andrei Kirilenko e outros tantos, de outras tantas nacionalidades. Mas Ginóbili chamou a atenção por parecer um excelente custo-benefício: escolhido muito tarde no draft, com relativamente baixos salários iniciais, mostrou-se um jogador altamente eficiente em ambos os lados da quadra. Juntamente a Tim Duncan e a Tony Parker, outro estrangeiro, formou o trio com o maior número de vitórias da história da NBA, interrompido somente pela aposentadoria do primeiro. O recorde anterior pertencia ao lendário trio formado por Larry Bird, Robert Parish e Kevin McHale, do icônico Boston Celtics dos anos 80.

O sucesso de jogadores estrangeiros no início dos anos 2000 deveu-se também a uma maior abertura do mercado da NBA, claramente. A globalização, a internet e a expansão dos negócios para localidades mais distantes, como Ásia e, mais recentemente, América Latina, atraiu a atenção de expectadores em busca de atletas por ele conhecidos, com quem pudessem se familiarizar. O jogo em si tornou-se mais palatável aos olhos do mundo e parece mais orgânico atualmente, sem dar a impressão de que a NBA “força a barra” ao tentar adentrar países e culturas muito diferentes às de sua terra natal. Vários atletas internacionais escolhidos entre os primeiros selecionados de cada draft em anos recentes eram crianças no idos do início do século XXI e, de certa forma, foram atingidos pelos jogadores relatados acima e por suas performances e carreiras.

Recente enquete promovida pelo Jumper Brasil mostra que, entre os anos de 1953 e 1998, apenas 44 atletas estrangeiros haviam sido escolhidos na primeira rodada do recrutamento. De 1999 – por coincidência o ano de recrutamento de Ginóbili, selecionado no final da segunda rodada – até a escolha desse ano, 127 atletas foram designados a diferentes franquias: em 17 anos, quase o triplo do que havia sido feito em quase 50 anos de escolhas de estrangeiros. Se houvesse um levantamento factual do número de estrangeiros que, mesmo deixados de lado na escolha do draft, seguiram carreira na NBA após o início dos anos 2000, este mostraria um assustador crescimento da procura de jogadores atuando em alto nível e em outros praças, bem como pudemos ver pelas seleções que atuaram no torneio olímpico masculino do Rio de Janeiro. Para o público espectador da melhor liga do mundo, ficou fácil reconhecer os atletas, suas qualidades e o que eles poderiam acrescentar a seus companheiros, treinadores e torcedores. Não foi difícil, por exemplo, saber a diferença de estilo de jogo ou mesmo da nacionalidade dos dois Bogdanovic da NBA: Bojan, responsável direto pela vitória da Croácia sobre o Brasil, camisa 44 do Brooklyn Nets; Bogdan, de nacionalidade sérvia, foi medalha de prata nos Jogos e atua no Fenerbahçe da Turquia, tendo seus direitos ligados ao Sacramento Kings. Nada mais os liga a não ser o sobrenome.

Manu Ginóbili não foi o único responsável por qualquer um dos dois processos acima descritos. Entretanto, podemos reconhecer que foi protagonista de ambos. Hoje se tem uma NBA cada vez mais globalizada por motivos diversos – esportivos, econômicos, sociais – mas a matéria principal desse jogo ainda é o jogador, sua importância dentro de quadra e o legado que deixa  para fora das quatro linhas. Seja em Bahía Blanca, em Bologna, em San Antonio, em Indianápolis, em Atenas ou mesmo no Rio de Janeiro: a língua do basquetebol bem jogado, eficiente e que fica para a história não é exatamente o espanhol, o italiano, o inglês, o grego ou o português. A língua dessa atual NBA que cada vez mais interliga e é interligada pelos quatro cantos do planeta é a bola laranja que sobe, passa pelo aro e encanta os garotos e garotas que ainda surgirão. Manu Ginóbili se aposentou da camisa número 5 da seleção argentina de basquete após a derrota para o selecionado americano nas quartas-de-final da Olimpíada Rio 2016: continua a ostentar a camisa número 20 do Spurs e a inspirar as gerações dos Ginóbilis que nascem aqui, ali, acolá, e que continuarão o tornar o esporte da bola ao cesto universal como, cada dia mais, tem se tornado.

  • Cesar Barros

    Monstro! Sem mais!

  • Michel Moral

    Nada a declarar. Matéria perfeita!

    Parabéns, Guilherme.

  • Evandro

    Parabéns pelo texto.

    Qto a despedida do Ginobili foi uma das cenas mais belas e emocionantes q vi (mais uma vez a torcida argentina dando show).

  • Monstro esse Ginóbili…
    Parker
    Nash
    Ginóbilli
    Dirk
    Gasol

    formariam a melhor seleção estrangeira que vi jogar na liga…

    Parabéns pelo texto Guilherme!

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