A vida depois dos 40

A vida começa depois dos 40 anos. Você já deve ter escutado essa frase, esse testemunho, essa afirmação que transborda sabedoria e experiência em algum período da sua vida. Leva tempo, mas cada um de nós chega(rá) a esse momento definidor da trajetória pessoal: quebrar a barreira dos 40 é marcante. Passar dos 40 pode ser um ponto especial na vida de cada um, rumo a uma transformação de hábitos e escolhas, ou à definição do próprio futuro: basta apenas uma decisão para isso.

Como a vida imita a arte (popular da “sabedoria de boteco” e suas frases clichés), o basquetebol também segue a linha de que, sim, há vida depois dos 40: depois dos 40 escolhidos no draft, a seleção de calouros que ocorre a cada interstício de final e início de nova temporada. Muito já se falou sobre erros prematuros, escolhas ruins e desperdícios de direitos de escolha nas primeiras posições da seleção, mas talvez nem tanto se falou sobre os acertos e as tiradas-de-coelho-da-cartola que já aconteceram com escolhas depois da 40ª posição. Senta um pouquinho, meu filho: deixa eu te contar um história que você ainda vai me agradecer…

Este início de temporada 2016-2017 tem sido marcante por conta do desempenho espetacular de alguns jogadores: James Harden, do Houston Rockets, e Russell Westbrook, do Oklahoma City Thunder, parecem brigar cabeça a cabeça pelos prêmios de MVP da temporada e de maior máquina humana capaz de criar triplos-duplos seguidamente. Westbrook está em vantagem no último quesito, Harden parece ser o jogador mais valioso em atividade até agora. LeBron James guia facilmente o Cleveland Cavaliers a uma dominância silenciosa na conferência leste, enquanto Kevin Durant juntou-se ao Golden State Warriors a ponto deste ser o time mais divertido de se assistir na TV ou com o qual se jogar videogame.

Outros desempenhos são notáveis também pelas circunstâncias que envolvem alguns astros considerados “patinhos feios” nas seleções de calouros. Isaiah Thomas é o nome mais certeiro que pula à mente neste aspecto. Thomas, armador que vem guiando o Boston Celtics ao, até agora, terceiro melhor posto em sua conferência, já foi um all star na temporada anterior: ele só melhorou de lá pra cá. Com médias por jogo de mais de seis assistências e quase 28 pontos ele é o quinto na corrida para ser o cestinha da temporada: todos os atletas acima dele foram escolhidos no top 5 do draft (os já citados Westbrook e Harden, além de Anthony Davis e DeMarcus Cousins). Thomas, pasme, foi a última escolha na seleção de 2011. Sim, você leu direitinho. Última. Outros 59 atletas foram draftados antes dele.

Brigando para ir ao All Star Game mais uma vez, agora em Nova Orleans, o atleta de apenas 1,75m de altura poderá ser titular da partida pela primeira vez na carreira pelo atual desempenho que tem encantado fãs, jogadores e especialistas. Não dá pra duvidar que será a última. A altura de Thomas, considerada muito baixa para atletas profissionais até mesmo fora da NBA, fatalmente foi o aspecto que fez com que sua escolha fosse tão baixa. Inspirado em Allen Iverson, outro “baixinho” altamente notável, que já declarou estar assistindo Thomas e torcendo por ele, o camisa 4 do Celtics prova que estereótipos existem, são levados em consideração pelos olheiros e que estão sempre a espera de serem combatidos.

Um outro estereótipo definiu parte da carreira de Marc Gasol, pivô do Memphis Grizzlies. Marc foi selecionado como a 48ª escolha do draft de 2007 pelo Los Angeles Lakers e, em seguida, trocado na operação que levou seu irmão mais velho, Pau Gasol, do Tennessee para a Califórnia. É sabido hoje, declarado em entrevistas e registrado em livros, que o Houston Rockets tinha uma predileção pelo seu jogo e pensava em Gasol como a escolha número 26 daquela seleção. O atual general manager da equipe, Daryl Morey, chegava ao time texano naquela temporada e reparou que havia uma cultura da equipe em dar apelidos aos prospectos observados pela equipe de olheiros: o nome de Marc vinha com a jocosa alcunha de “homem com peitos”, claramente alusiva à forma física e peso do espanhol depois de ser observado.

O apelido pegou, o interesse da franquia caiu, Aaron Brooks foi a escolha do Rockets naquela seleção. Gasol se tornou um atleta de alto nível dentro da NBA e por sua representatividade internacional, e os apelidos, depois disso, foram banidos por Morey no Rockets. Além de perder muito peso, Marc hoje é conhecido como um dos pivôs mais versáteis, ágeis e inteligentes da NBA. Duas vezes escolhido para o Jogo das Estrelas, foi o melhor jogador de defesa da liga na temporada 2012-2013. Nada mau para um gordinho com o jogo calibrado e em forma: quase 20 pontos, 6 rebotes, mais de 4 assistências, mais de um toco e um roubo por partida atuada em 2016-2017. Mais que enxuto: preparado – se os bordões de funk me permitem.

Outro que chama atenção no noticiário especializado nesta parte da temporada é Paul Millsap, ala-pivô do Atlanta Hawks. Millsap continua fazendo um grande trabalho: com médias de quase 18 pontos, mais de 8 rebotes e quase 4 assistências por embate, ele ainda é um expoente ofensivo e defensivo do garrafão do time da Geórgia, agora ao lado de Dwight Howard, apesar de ter seu nome especulado como “linha de frente” para trocas e aquisição de atletas para reconstrução do time – seu contrato com a equipe expira em junho de 2017 e o medo de perdê-lo de graça faz o Hawks cogitar negociação, apesar da técnica, raça e inteligência da escolha de número 47 no draft de 2006.

Praticamente nos acréscimos daquela seleção, o Utah Jazz escolheu Millsap, que iniciou seus passos na NBA em Salt Lake City, mas desenvolveu-se como um dos melhores alas-pivôs da Liga atuando com a camisa do Hawks.

O já três vezes all star é outro que teve sua cotação trazida pra baixo, mas dessa vez em razão de sua estatura: listado como um atleta de 2,03m de altura, algo até mesmo comum para alas e armadores que atuam nas posições 2 e 3 – nem tanto na posição 4 como ele -, Millsap seria baixo pra atuar perto da cesta. Claramente, isto varia de atleta para atleta e o sucesso do profissional depende de sua envergadura, características de jogo, adaptação ao esquema utilizado pela equipe e, mais que tudo, trabalho duro. Atletas mais baixos que ele, como Charles Barkley e Dennis Rodman, são alguns dos mais lendários alas de força da história, e trouxeram tudo isso para a quadra a cada noite. Millsap desde sempre foi conhecido pela energia que empenhava nas partidas, seja no ataque ou na defesa, e se o rumor de sua troca se concretizar, a equipe que o tiver à disposição no plantel tende a evoluir em aspectos gerais.

Há muitos outros casos de atletas selecionados depois do número 40 no draft durante a história. Os casos acima relatados trazem exemplares dos últimos dez anos de recrutamento e ainda agrupam as situações de, por exemplo, Goran Dragic – armador esloveno do Miami Heat, selecionado pelo San Antonio Spurs e imediatamente trocado para o Phoenix Suns e já condecorado com o prêmio de jogador que mais evoluiu em 2013-2014 – e Patty Mills – escolha de número 55 pelo Portland Trail Blazers em 2009, campeão da NBA com o San Antonio Spurs em 2014 e maior pontuador dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012 -, jogadores com impacto em suas equipes sem ter o nome tão em voga atualmente. Voltando um pouco mais tempo no tempo há o fantástico caso de Manu Ginóbili, 57ª e penúltima escolha do recrutamento de 1999 pelo San Antonio Spurs, quando ainda jogava na Itália. Dezessete anos depois, quatro campeonatos da Liga com o time texano, uma medalha de ouro olímpica em Atenas-2004 e o resto é história: a memória já não alcança todos os louros conquistados.

Situações e casos como esses comprovam que, mesmo que de vez em quando, há vida depois dos 40. Do alto de meus 26 anos de idade, desde os 14 acompanhando a NBA, é claro e límpido perceber que em outras oportunidades no futuro isso também acontecerá. Não se pode, de certa forma, condenar ou maldizer o trabalho de olheiros, treinadores e diretores de equipes para os atletas aqui relatados. Entretanto, não se pode deixar de observar alguns apontamentos realizados em decorrência de aspectos gerais que impliquem no recrutamento de um jovem. Se um jogador é draftado antes ou depois, isto depende de inúmeros fatores: talento, comportamento, perspectiva de carreira, quantidade de atletas da mesma posição já inseridos no plantel, idade, etc. O fato é que algumas indicações acabam sofrendo mais com o medo de errar em detrimento da vontade de acertar. Mas nada que não seja algo remediável… Isso é coisa da vida, meu filho: leva tempo. Depois dos 40 tudo fica mais fácil de se entender, e depois de muitos erros fica um pouquinho mais fácil de se acertar.

  • Texto bacana. De fato há muito talento que explode apenas mais “maduro” – ao mesmo tempo que é muito comum o contrário, garotos que explodem precocemente e atingem o teto antes de todos os outros, logo sendo ultrapassados.

    • Guilherme Gonçalves

      Diogo,

      Obrigado pela leitura e pelo comentário.

      Um abraço,

      Guilherme

  • João Marcelo S. de Almeida

    Texto muito interessante. Há um tempo, debati com uma pessoa com relação ao segundo round do draft. Eu dizia que sempre valia a pena adicionar uma pick de segunda rodada, porque é uma aposta válida (não tem contrato garantido, o que reduz os custos). Mas sempre era rebatido que jogador de segunda rodada não vale nada. Estão aí exemplos de jogadores de segunda rodada que deram muito certo. Acho que, inclusive, o “aproveitamento” da segunda rodada não deve ser tão menor que o da primeira.

    • Junior Henrique

      Olha o draymond green caso fantástico e o Celtics selecionou o FAB MELO na frente dele, imagina o Green naquele garrafão celta…

    • Guilherme Gonçalves

      João Marcelo,

      Obrigado pela leitura e pelo comentário. De fato, sua percepção é interessante do ponto de vista que a aposta é válida pelo baixo custo. Mas isso demanda muito trabalho de olheiro e de scout das equipes, algo que algumas apenas têm muita manha em fazer, como o Spurs com os europeus ou estrangeiros atuando na Europa, e outras nem tanto.

      Um abraço,

      Guilherme

  • Bruno Da Silva Francisco

    Draft são projeções e influencias de agentes… não há garantia nenhuma de que fulano ou sicrano dará certo, é claro que pelo que vê algumas pessoas jogando, aparentemente vc imagina que “tem mais potencial” que outros, e nesse caso o rubio é o melhor exemplo, surgiu com 16 anos como grande futuro, enorme potencial, e olha o jogador que é atualmente??? Ninguém imaginaria que ele seria ” apenas isso” mediante a todo potencial que ele tem…

  • Rafael Al

    Ótimos exemplos, Isaiah um dos meu jogadores preferidos evoluindo cada vez mais só sucesso pra esse baixinho.

  • Uncle Drew

    Esqueceram de citar o Chandler Parsons como exemplo. rs

  • Eliab Landin

    Excelente texto. Só corrigir aí, pq o Manu tem 4 títulos, mas como disse, são muitas conquistas…

    • Guilherme Gonçalves

      Eliab Landin,

      Valeu pela correção, cara. Passou batido aqui na cabeça o título em 2002-2003 com o Spurs quando novato e reserva. Obrigado!

      Um abraço,

      Guilherme

  • Rodrigo SMC

    É bem curioso isso. Esses dias passou uma doc na ESPN sobre os dois títulos seguidos do Florida Gators na NCAA que manteve o quinteto titular em duas temporadas. Tinha o Al Horford, Corey Brewer, Joakin Noah, Taurean Green e Chris Richard.

    E estavam no mesmo draft do Marc Gasol. Nesse caso não era difícil imaginar que esses caras seriam as primeiras escolhas.
    O Al Horford foi a terceira escolha, só atrás do Kevin Durant e Greg Oden, que ganhavam tudo que é prêmio individual de colégio.
    Dessa equipe, saíram 2 all-stars e o Brewer hoje ainda é reserva utilizado no Houston. Mas o Green que foi até MVP do SEC, não durou muito na NBA, mas na época era considerado um ótimo point guard.

    Mas analisando outros nomes da mesma posição daquele draft, era pro Marc Gasol ter uma posição bem melhor, já que chegava como MVP da liga espanhola. Na época tinha até o Rudy Fernandez que era o principal jovem do país na época e foi escolha de primeira rodada, mas não durou muito na NBA

  • Bruno Ribeiro-76ers

    Belo texto… E a comparação entre Thomas e Iverson realmente é válida… O estilo de jogo do baixinho lembra muito o do “the answer”… Thomas tem gastado a bola, realmente é sendo selecionado na pick 60 impressiona ainda mais