Aí vem o Chocolate Thunder!

https://www.youtube.com/watch?v=TtJawsitMsA

Você consegue imaginar DeAndre Jordan ajudando de forma significativa a causar um impacto histórico na forma com que o basquetebol é jogado e assistido? Provavelmente não. Afinal de contas, Jordan é um baita jogador e certamente figura entre os melhores pivôs da NBA nos dias de hoje, mas nada que chegue perto dos feitos alcançados pelos lendários pivôs que já pisaram em quadra, certo? Foi mais ou menos isso que Darryl Dawkins fez. O ex-jogador, que veio a falecer na semana passada aos 58 anos, nunca foi tão talentoso quanto Bill Russel ou Kareem Abdul-Jabbar, mas de sua própria forma tem seu mérito na forma como o jogo evoluiu.

Pense em 1976. Uma fase de transição entre a era Russel-Chanberlain e a era Magic-Bird. A NBA não vivia seus melhores dias, com audência de jogos em queda-livre, ginásios não tão cheios e muitos atletas se envolvendo em problemas com drogas. A situação era ruim, mas com perspectiva de melhora; a liga havia vencido a queda-de-braço com a ABA. A liga rival deixaria de existir e quatro times migrariam para a NBA, um deles contendo o melhor jogador de basquete do planeta naquele ano: Julius Erving, o Dr. J. Erving era o atual MVP e campeão do torneio de enterradas da liga anterior e seu jogo continha movimentos plásticos que não eram comuns naquele tempo. Com jogadores e mercados novos e sem concorrência, era a chance da NBA de brilhar.

A liga, no entanto, ainda não colocava muita fé na enterrada. O torneio de enterradas da ABA foi descontinuado e os árbitros ainda eram muito críticos com faltas geradas por esse tipo de movimento. Mas haviam alguns jogadores que iriam na contramão dessa tendência. Um deles, é claro, era o próprio Dr. J. Mas havia um menino em Philadelphia que seria exatamente o oposto do que a NBA esperava de um jogador de basquete dentro de quadra.

Darryl Dawkins foi o primeiro jogador a pular a faculdade e ir direto do high school para a NBA. Teoricamente foi o segundo, visto que o Detroit Pistons tentou aplicar um pelé na liga nos anos 60, mas à entrar em quadra como um rookie direto do colégio foi Dawkins, a 5ª escolha do draft de 1975. Alto, rápido e absurdamente forte, o pivô fez sua estreia contra o forte New York Knicks. Saindo do banco, fez 6 pontos (todos em enterradas brutais) e deu 4 tocos em pouco mais de 10 minutos. Ao final do jogo, a estrela do Knicks Walt Frazier deu a sua opinião sincera sobre o jogador: ‘Aposto que onde ele veio os professores que o chamavam de Sr. Darryl’.

As comparações com Chanberlain devido à seu porte físico eram inevitáveis. ‘Quando eu cheguei na liga, as pessoas queriam que eu fosse o novo Wilt Chanberlain logo de cara, sem um único minuto de basquete jogado na faculdade. Eu não posso ser Chanberlain. Ele é mais alto que eu’ contou Darryl ao jornal ‘The Daily News’. Tentando corresponder às expectativas mesmo precisando ser desenvolvido, Dawkins batalhou com lesões logo no começo de sua carreira. Em seus dois primeiros anos, não jogou metade dos jogos da temporada. Em seu ano de sophomore, o 76ers avançou às finais da NBA e Darryl seria o titular e responsável por marcar Bill Walton, pivô estrela do time adversário. O Trail Blazers venceria e se sagraria campeão, mas Dawkins ganhou respeito pela sua postura naqueles jogos.

A partir daí, sua carreira decolou. Já com as expectativas de todos devidamente alinhadas (ele não seria o novo Chanberlain), seus minutos passaram a serem controlados, mas Dawkins correspondeu. Nos seus próximos quatro anos, Darryl teria médias de 13.1 pontos, 6.2 rebotes, 2.1 tocos e acertando 62% dos seu arremessos, um dos melhores percentuais da liga. É claro que isso não significava que era um bom arremessador, e sim que não havia muitos jogadores capazes de lidar com seu porte atlético. Seu jogo chamaria atenção até mesmo de quem não enxergava.

Stevie Wonder, o músico que perdeu a visão logo ao nascer costumava frequentar os jogos em Philadelphia com um guia que lhe narrava tudo que estava acontecendo em quadra. Conforme Dawkins foi lhe chamando atenção, Wonder passou a gritar em sua cadeira de quadra durante o aquecimento nos jogos: ‘Hey, o grande chocolate guy (em referência à cor da pele) com mais uma enterrada monstruosa. What a thunder dunk! Aí vem o trovão chocolate!’ O termo, que em português parece nome de música do Luan Santana, acabou virando sua marca registrada. Dawkins passou a ser o Chocolate Thunder.

Sua fama alcançaria seu auge em novembro de 1979. O 76ers viajou à Kansas para enfrentar o Kansas City Kings. Com 38 segundos restando para o fim do terceiro quarto, Dawkins recebe um passe. Seu marcador erra o ‘timing’ da jogada e o pivô sobe sozinho para a enterrada. Darryl põe tanta força na jogada que a tabela simplesmente explodiu. O vidro se despedaçou, o aro caiu e centenas de pedaços de vidro estavam caídos pela quadra. O ginásio ficou em silêncio absoluto por cinco segundos, todos tentando processar o que aconteceu. O cara quebrou a tabela enterrando? Foi isso mesmo?! Em seguida, o ginásio vai abaixo. Todos os torcedores do Kings, incrédulos, ovacionando Dawkins pela jogada surreal que acabara de protagonizar.

Dawkins disse após a enterrada que ele havia sido possuído por um trovão chocolate: ‘Eu não tentei quebrar a tabela. Mas eu pude sentir a energia dentro de mim querendo sair. Eu não pude controla-la’. Três semanas depois, ele quebrou mais uma tabela. Dessa vez em San Antonio, e proposital. A NBA, ainda sem entender a popularidade da enterrada, ameaçou multar o jogador, o que o deixou bem irritado: ‘A NBA me convocou para Nova York e me falaram que a próxima vez que eu quebrasse uma tabela eu seria multado em 5 mil dólares. Tudo bem. Afinal a merda da liga é deles, certo? Então pouco tempo depois eu vejo um comercial na TV. A NBA é excitante, blablabla. Venha ver um jogo, blablabla. E aí aparece meu vídeo quebrando a tabela. Que merda é essa?! Essa é a hipocrisia mais imbecil que eu já presenciei.’

O fato é que após as enterradas quebradas de Dawkins tanto a NBA quanto a NCAA mudaram seus aros. As ligas passaram a jogar com os chamados ‘breakaway rins’, os aros que conhecemos hoje que se inclina levemente para baixo quando um jogador puxa para depois voltar à sua posição normal. É um aro mais resistente que permite o uso de enterradas à exaustão. O uso desse aro e o jogo físico do Chocolate Thunder serviriam de inspirações para uma geração que ainda iria despontar. Anos mais tarde, David Stern assumiria o posto de chefão da NBA. Com uma visão de negócio acima da média, Stern voltaria com o torneio de enterradas, exploraria à exaustão as jogadas aéreas protagonizadas por Michael Jordan e Dominique Wilkins e no final das contas a enterrada acabou sendo um dos grandes propulsores da popularidade do basquete a nível mundial. Pena a liga não entender isso no auge do Chocolate Thunder.

O pivô seria dispensado do 76ers em 1982 para a chegada de Moses Malone. O time da Philadelphia seria campeão logo depois de dispensarem Darryl, que foi para o New Jersey Nets. Em seus primeiros anos atingiu a melhor forma da sua vida, com médias de 16.8 pontos, 6.7 rebotes e absurdas 4.7 faltas por partida, recorde até hoje não alcançado na história da NBA. Apesar da má relação com a arbitragem, Dawkins se virava. As lesões acabaram o atrapalhando mais uma vez. Jogou no Nets por cinco anos, teve passagens curtas por Pistons e Jazz e logo seria dispensado de vez da liga. Jogou um ano nos Harlem Globetrotters e mais um tempo na Europa antes de se aposentar em definitivo.

Darryl Dawkins viveu em uma época onde seu estilo de jogo ainda não era valorizado e apreciado como hoje. Ele nunca foi campeão da NBA, nunca jogou um All-Star Game e não está no hall da fama do basquete. Sempre bem humorado, o jogador costumava dizer que era um alienígena vindo do planeta Lovetron para nos divertir. De fato, o mundo do basquete era tão diferente dele nos anos 70 que ele criou seu próprio mundo. O pivô costumava dar nomes às suas enterradas. A enterrada que mudou o jogo, a que quebrou o aro em 1979, foi chamada de Chocolate-Thunder-Flying Robinzine-Crying Teeth-Shaking Glass-Breaking Rump-Roasting Bun-Toasting Wham-Bam-Glass-Breaker-I-Am-Jam. Não me peça para traduzir esse negócio. Mas a parte do ‘Robinzine-Crying’ se refere à Bill Robinzine, pivô do Kansas City Kings que tomou a enterrada na cabeça e teve que se desvencilhar dos cacos de vidro. Bill estaria fora da liga dois anos após esse lance e se mataria em 1982.

Se hoje o jovem DeAndre pode quebrar a clavícula do Brandon Knight e ‘posterizar’ os seus marcadores, ele deve um ‘muitíssimo obrigado’ ao Chocolate Thunder. Não só ele. Se hoje o jogo que amamos é boa parte do tempo jogado ‘no ar’, muito disso se deve à Darryl Dawkins e o legado que ajudou a construir. Abaixo estão os vídeos das duas tabelas quebradas e de seu top 10 na carreira.

Obrigado, Chocolate Thunder!

  • Rodrigo Silva

    SHOW! Belíssimo texto!

  • Rafael Victor

    O Darryl Dawkins parece ser daquelas chamadas “lendas/pérolas perdidas”, de grandes feitos não foram tão bem compreendidas no seu tempo (a declaração dele sobre a hipocrisia da NBA querer multa-lo por quebrar tabelas e depois fazer propaganda em cima disso é genial) mas como tá escrito no texto foram mais do que importante pra evolução do jogo e tal! O Troféu/Torneio de Enterradas tinha que levar o nom e dele, seria uma homenagem mais do que justa! Grande Darryl Dawkins!

  • Gabriel Souza

    O cara simplesmente foi boicotado pelo seu próprio tempo e pelos caras que comandavam a NBA na época. Puta falta de visão não perceber que a enterrada é a jogada que encanta até quem não gosta de basquete. Ao menos agora, post-mortem, ele será devidamente reconhecido. Eu, torcedor do 76ers, já sabia da existência dele há anos. Nunca entendi porque ele não era mais valorizado. O que ele fez era sobre-humano! Poucos jogadores, depois de 30 anos desde que o Dawkins se aposentou, conseguem fazer jogadas parecidas com as dele. Se jogasse hoje em dia, com tanta mídia que os jogadores têm, seria uma lenda com certeza. RIP Chocolate Thunder!

  • TRUETHIAGO

    Pois é, mais um caso de jogador que estava a frente do seu tempo. Por isto é complicado ficar comparando gerações, quem jogou mais/menos, etc (podem ver que raramente debato nesses tópicos, rs). Épocas diferentes, cada uma com suas peculiaridades, contextos distintos, táticas, regras e tal.

    Nesse vídeo também dá para ter uma ideia de como ele jogava bem, mais do que apenas enterradas; NBA Finals 1980, duelando honestamente contra KAJ:

    https://www.youtube.com/watch?v=T0bzLmpp5MA