Após 27 anos, Spencer Haywood supera polêmicas e entra no Hall da Fama

A entrada no Hall da Fama é o fim de uma longa jornada para Spencer Haywood. Elegível há 27 anos e depois de várias indicações em sucesso, o ídolo do Seattle Supersonics finalmente conseguiu a votação mínima do comitê de honra e seu espaço entre os maiores da história do esporte. Ele subiu ao palco acompanhado por três “padrinhos” especialmente escolhidos: o ex-técnico Lenny Wilkens, o ex-adversário Bill Walton e o amigo Charles Barkley.

“Muito obrigado. Obrigado a todos por permitirem que eu entre nessa irmandade de grandes atletas. Uma irmandade de jogadores e seres humanos realmente especiais”, agradeceu o novo membro do templo máximo do basquete. Seus feitos em quadra incluem quatro Jogos das Estrelas da NBA, um prêmio de MVP da ABA em seu ano de novato e uma medalha de ouro olímpica como grande destaque da seleção dos EUA na Cidade do México-1968.

Apesar das incontestáveis façanhas e atuações, Haywood ficou mais conhecido pelas batalhas que protagonizou fora das quatro linhas. Ele teve que processar a NBA e ir até a suprema corte norte-americana em 1970 para garantir o direito de jogar pelo Sonics – onde lideraria a franquia aos playoffs pela primeira vez em sua história. O processo criou precedente para que os atletas não precisassem passar quatro anos na universidade antes de se inscreverem no draft.

“Eu assinei com Seattle e ainda não havia passado quatro anos de que entrei na universidade. A NBA me suspendeu e as pessoas jogavam coisas em mim por onde passava, dizendo que estava arruinando o esporte. Mas continuamos lutando até a suprema corte. E eu lutava pela minha mãe, que precisava colher algodão no Mississipi por US$2 ao dia. Pude tirá-la de lá”, contou o ex-ala-pivô de 66 anos, quase sem conter as lágrimas.

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Após deixar o Sonics, Haywood viveria uma obscura segunda metade de carreira com o início do vício em drogas que atrapalharia seu desempenho em quadra. Ele seria campeão da NBA pelo Los Angeles Lakers, em 1980, mas foi afastado do elenco durante as finais por conta de sua péssima conduta. Este seria, ao lado do processo da NBA, o motivo para ter ficado quase três décadas “na fila” para entrar no Hall da Fama.

O ex-jogador está reabilitado há mais de 30 anos e, hoje, ajuda outras pessoas a superarem a dependência química. Ele recuperou-se e, ao mesmo tempo, sua história foi recuperada pelos fãs da NBA com uma forte campanha recente para sua entrada no Memorial Naismith. Astros como Kevin Garnett e Kobe Bryant também fizeram questão de relembrá-lo nos últimos anos como um pioneiro nos direitos de elegibilidade de colegiais e universitários na NBA.

“Hoje em dia, eu sou capaz de ver os resultados da minha luta nos tribunais. Por exemplo, um jogador como LeBron James conseguiu quatro anos extras na NBA e uns US$100 milhões a mais [saindo diretamente do basquete colegial]. Kevin Durant teve três anos a mais e US$75 milhões [podendo deixar a universidade antes]. Suas famílias estão garantidas agora. Vejo o impacto do que fiz e estar aqui hoje é uma grande benção”, explicou.

A história de Haywood vai muito além do que aconteceu em quadra, mas ele chegou ao Hall da Fama pelo que fez dentro das quatro linhas. Não é possível esquecer que ele era o único atleta a ter temporadas com médias de 30 pontos e 20 rebotes na NBA a não estar entre os maiores do basquete até essa sexta-feira. “Então, lembrem-se pessoal: eu era muito bom. Não fui só o cara que foi até a suprema corte. Eu joguei muita bola”, cravou, arrancando risos da platéia antes de deixar o palco.

Ricardo Stabolito Jr.
Ricardo Stabolito Jr.
Jornalista de 27 anos. Natural de São Bernardo do Campo, mas vive em Salvador há mais de uma década.