Dzanan Musa: Personalidade e falta de unanimidade

Por Gabriel Andrade

Quando se fala em scouting, também conhecido como a arte de avaliar talentos em suas mais diferentes características e contextos dentro de uma modalidade esportiva, é bem importante notar a cada detalhe. Um relatório de um olheiro sobre um talento pode até ser razoavelmente simples quando apresentado a um General Manager, mas toda sua produção leva um enorme tempo, esforço e umas dezenas de páginas com todo tipo de informação que você pensar, desde background familiar até o desempenho efetivo em quadra, e todos os pormenores no meio disso tudo. Uma introdução dessa basicamente para dizer que avaliar talentos não é simples, exige tempo e estudo de anos, acompanhamento frequente e que não é nada muito exato, é avaliar um ser humano que, além de toda a questão da quadra, tem todo o seu psicológico trabalhando dentro de si (além do psicológico de quem está envolvido por fora, de treinador, Manda-Chuva do clube, familiares), que podem fazer com que um atleta acabe vingando ou não a nível profissional.

Feito este longo prazo, apresento aqui minha coluna no Jumper Brasil. Sou Gabriel Andrade, que tento a vida como Scout Internacional, e aqui pretendo trazer um texto semanal focado no tema de avaliação de talentos, de jogadores do NCAA, clubes internacionais, brasileiros, de não-draftados a já escolhidos se desenvolvendo, ou mesmo temas mais genéricos. Espero que gostem! Para começar, sempre bom falar de um talento intrigante, nem um pouco unânime e cheio de personalidade.

Dzanan Musa

País: Bósnia-Herzegovina

Clube: Cedevita Zagreb

Idade: 18 anos (1999)

Medidas Físicas

Altura: 2,06 metros (6’9’’)

Envergadura: 2,04 metros (6’8.5’’)

Alcance Vertical em Pé: 2,67 metros (8’9’’)

Peso: 88,5 quilos (195 libras)

Atributos Posicionais

Posição Listada: Ala

Estereótipo Posicional: Ala Ofensivo/Criador Secundário

Habilidades Posicionais: Alto USG% com a bola, criação de chutes para si mesmo, pontuação via isolação e pick-and-roll, chute após o drible, chute de três pontos sem a bola.

Jogadores recém-draftados na categoria: Jamal Murray, Denzel Valentine, Buddy Hield e Devin Booker.

Estatísticas

Pré-Qualificatória Europeia para Copa do Mundo (Seleção Bósnia Profissional): 22.8 pontos, 3.3 rebotes, 2.5 assistências, 2.0 desperdícios de bola, 1.7 roubos de bola, 0.5 tocos, 53.2% nos arremessos de quadra, 45% nos arremessos de três pontos (6.7 tentativas) e 82.2% nos lances livres (7.5 tentativas) em 28.8 minutos.

Eurocup: 12.0 pontos, 4.7 rebotes, 0.3 assistências, 0.3 desperdícios de bola, 0.7 roubos de bola, 0.7 tocos, 46.2% nos arremessos de quadra, 42.9% nos arremessos de três pontos (4.7 tentativas) e 75.0% nos lances livres (2.7 tentativas) em 20.9 minutos.

Liga Adriática: 14.8 pontos, 4.5 rebotes, 1.3 assistências, 1.5 desperdícios de bola, 1.0 roubos de bola, nenhum toco, 50.0% nos arremessos de quadra, 35.7% nos arremessos de três pontos (4.7 tentativas) e 82.6% nos lances livres (3.8 tentativas) em 24.8 minutos.

Contexto Profissional

Dzanan Musa chama a atenção dos olheiros desde que estreou no EuroBasket U16 aos 15 anos, já dominando a competição ali com médias superiores a 20 pontos por jogo. No ano seguinte, comandou sua seleção ao título da mesma competição, acompanhado de outra joia de sua nação, o armador Sani Campara, cria do Real Madrid. Já muito conhecido nacionalmente nesta época, a conquista levou 50 mil pessoas às suas de Sarajevo, capital do país, algo impensável, por exemplo, nos títulos que o Brasil ganha na base do futebol.

O talentoso ala ainda foi estrela das equipes bósnias do EuroBasket U18 e no Mundial Sub17, mas dessa vez com resultados bem diferentes e início do ceticismo sobre algumas de suas habilidades, ainda que tenha permanecido muito produtivo.

Após se transferir para o Cedevita Zagreb, clube de maior expressão na Croácia atualmente e de segundo maior orçamento nos Bálcãs (atrás apenas do Crvena Zvezda, da Sérvia). Musa começou a ganhar minutos de quadra já aos 16 anos na Euroliga. Atualmente, o clube disputa a Eurocup, segundo torneio continental em nível de qualidade e expressão, além da Liga Adriática, torneio regional que reúne clubes de toda Ex-Iugoslávia.

Seu papel na equipe é ser um sexto homem pontuador, capaz de comandar a segunda unidade e criar após o drible em grande volume (USG% de 24%, taxa similar à de Kyle Lowry no Toronto Raptors na temporada passada). Na offseason, em que jogou a Pré-Qualificatória Europeia para a Copa do Mundo pela Bósnia, foi o principal jogador, responsável por quase toda a produção ofensiva da equipe, ainda que sendo o jogador mais jovem do elenco. Deu certo e a Bósnia conseguirá disputar as Eliminatórias para a Copa, lembrando que o baixo nível da competição tenha facilitado um pouco.

Atributos Físicos

Dzanan Musa é alto para um ala, mas com envergadura negativa que atrapalha sua versatilidade defensiva. Em termos de força, ainda é bem magrelo, algo que dificulta na absorção de contato próximo a cesta ou para defender jogadores mais maduros fisicamente. Do ponto de vista atlético, não possui grande explosão vertical, joga por baixo do aro em meia quadra e basicamente só enterra em contra-ataques. A velocidade lateral é apenas mediana e sua postura parece um pouco corcunda. Do ponto de vista físico, não é um atleta chamativo.

Personalidade

Poucos atletas são tão competitivos e tem gana por vencer nesta idade desse jeito. Apesar de magro, tem personalidade para chamar o jogo para si e parte para o contato. Por outro lado, constantemente mostra suas frustrações em quadra, seja reclamando com árbitros, companheiros, por vezes prendendo o jogo muito para si ou até se envolvendo em brigas. Em 2016, ano que a Bósnia reuniu Mirza Teletovic, Jusuf Nurkic e Musa para disputar o Pré-EuroBasket, o mais jovem brigou com Timofey Mozgov em um jogo decisivo, discutiu com Teletovic, o que gerou uma repercussão muito negativa, incluindo declarações de Nurkic que pensaria duas vezes em jogar de novo pela seleção, além de uma aparente impossibilidade de reunir os três novamente em uma mesma convocação.

Defesa

A projeção defensiva do bósnio não é lá muito alta, considerando seus atributos físico-atléticos, o que era piorado por sua postura indiferente neste setor da quadra durante a maior parte de sua carreira. Contudo, desde o Eurocamp 2017 vem demonstrando uma postura totalmente diferente, competitivo, se comunicando na retaguarda e batalhando contra corta-luzes, dobrando os joelhos para deslizar os pés e se manter de frente aos adversários:

Mas as limitações ainda estão presentes lá. Veja essa posse. Musa até faz bom trabalhando fechando a linha de infiltração e movendo seus pés, mas falta envergadura para contestar melhor a bandeja.

Nesta outra, apesar da cobertura ter funcionado, Dzanan Musa foi batido na infiltração pela falta de agilidade lateral de elite.

Ataque

Pontuador em volume (sem tanta eficiência) no nível de base, o processo de adaptação foi um pouco difícil até chegar na atual temporada, em que está combinando eficiência no volume certo. Despistando que não é um jogador muito atlético para criar separação para os adversários apenas usando de um primeiro passo explosivo, Musa é muito habilidoso, capaz de atuar em diferentes velocidades para se desvencilhar de marcadores, além de ser capaz de mudar de direção para finalizar ao redor do aro. Ainda desenvolvendo a habilidade de infiltrar de ambos os lados da quadra (preferência muito grande pelo lado esquerdo, despistando ser destro) e consegue usar ambas as mãos. Vai muito a linha de lance livre e cava bastante faltas neste tipo de lance.

Entretando, a falta de explosão contra envergadura de NBA pode pesar, necessita de espaço para operar e joga por baixo do aro em meia quadra, tende a sofrer contra legítimos protetores de aro na cobertura.

O arremesso é historicamente ineficiente e não tão fluido, mas que vem ganhando dinamismo com o tempo. A maior parte do volume de chutes de três pontos são saindo do drible. Musa consegue punir defesas que passam por trás do bloqueio, ou mesmo aproveitando curtos espaços na linha de três pontos após um pick-and-roll. Para um jogador pouco atlético e explosivo (e que adora infiltrar), ter esse tipo de lance em sua cartela exige uma defesa mais agressiva, o que lhe dá espaços melhores para penetrações. Se mantiver a eficiência, vai ser algo que ajudará seu stock. Contudo, não é capaz de chutar em movimento, saindo de bloqueios, algo que a mecânica baixa e lenta não sugere muita evolução neste sentido.

Em jogadas de isolação, a explosão, novamente, é um empecilho para criar em volume, mesmo que com jogo de pés avançado e controle de bola. Quando enfrentou jogadores de maior envergadura, sofreu para ser um desafogo ofensivo.

Sua visão de quadra existe, mas raramente se mostra em meia quadra devido a mentalidade mais pontuadora. Taxa de assistências por desperdícios de bola historicamente ruim (considerado turnover prone), a tomada de decisões pode mudar. Maioria de seus passes decisivos vem em transição ou em passes para pivôs ou arremessadores no lado forte.  Visão de quadra para fazer passes no lado contrário ainda em evolução. Tende a ter visão de túnel em infiltrações.

Produtivo no início de temporada, Dzanan Musa vai aos poucos superando questões sobre seu físico e personalidade para adentrar na loteria. Pontuadores desse nível não aparecem em abundância na Europa, um dos jogadores mais refinados de sua idade. O problema é que seu estilo de pontuação agressiva dentro na NBA não é de fácil adaptação. Que tipo de jogador defenderá? Seu refino técnico será suficiente para criar separação contra defesas mais longas e atléticas? Continuará sua evolução em termos de mentalidade? É saudável ter alguém desse estereótipo em quadra? Questões que cercam a evolução de um atleta produtivo, jovem e talentoso.

Contato Profissional: gabrielandradepaula1@gmail.com

Twitter: twitter.com/GabrielAndPaula

Ricardo Stabolito Jr.
Ricardo Stabolito Jr.
Jornalista de 27 anos. Natural de São Bernardo do Campo, mas vive em Salvador há mais de uma década.
  • William Felton

    Excelente trabalho, Gabriel! Muito bem detalhado, organizado e fundamentado. Foi possível ter uma boa noção acerca do jogo do Musa, mesmo sem conhecê-lo. Aprendi bastante lendo este seu estudo.

    Aguardo já o próximo scouting.

    Parabéns ao JB também, pelo novo colaborador!

    • Gabriel Andrade

      Obrigado 🙂 Semana que vem já tem mais outro

  • TRUETHIAGO

    Caramba, ótima aquisição do Jumper! O Gabriel é, sem a menor dúvida, uma referência no assunto. Aquelas colunas no TimeOut eram preciosas para quem também acompanha basquete europeu, com excelentes análises de jogadores que hoje estão aí na liga, como Saric e Bogdanovic. Tenho certeza que vai acrescentar bastante com seus artigos por aqui.

    Quanto ao Musa, vi poucas partidas dele, a princípio a facilidade de pontuar realmente chama atenção, mas o lado físico talvez seja um limitador pensando em nível NBA. Entre os 99, vejo o Isaac Bonga tendo um perfil mais próximo do que se busca atualmente, de all around. Enfim, o bósnio certamente estará no radar dos scouts e poderá ser um nome no Draft 2018.

    • Gabriel Andrade

      Entrarei no tema Isaac Bonga mais tarde, mas a verdade é que a avaliação dele tem despencado ultimamente. Musa ganhou força depois da offseason. O mais moderno é Kurucs, mas a situação no Barcelona é trágica.

  • Maicon Gomes

    Excelente matéria, foi prazeroso ler. Parabéns!

  • Wilian De Almeida Santos

    Belo texto ,esclarecedor bem detalhado com informações precisas parabens pela coluna aprendi e ja espero um novo texto

  • Leo

    Parabéns pela matéria. Já vi o nome dele em mocks mas confesso que não sabia muito sobre seu estilo.

    Confesso que ao ler me veio a comparação com Mario Hezonja. Espero que se adapte melhor ao basquete NBA

    • Gabriel Andrade

      Olha, Mario Hezonja não acho que seja uma comparação tão boa, até porque do ponto de vista físico, o croata é muito mais atlético/explosivo. Mas também é meio difícil achar uma comparação pro Musa, estilo de jogo bastante único.

  • Cristiano Oliveira

    Grande Gabriel, saudades do amigo! Parabéns pela matéria, muito boa como sempre!

    O que você acha a respeito do SF/PF francês Killian Tillie? Não vejo ninguém comentando sobre ele que jogará por Gonzaga. Ele está cotado por enquanto para ser draftado da metade para o final da 1ª rodada mas vejo grande potencial nele. Cara muito versátil e com QI interessante. Forte abraço e sucesso aí no Jumper!

    https://www.youtube.com/watch?v=HObx_wR2OlQ

    https://www.youtube.com/watch?v=YyM2pdY05Q4&t=32s

    https://www.youtube.com/watch?v=_l8svTafXr4

    • Gabriel Andrade

      Vi bastante nele nos Mundiais FIBA e confesso que não é meu prospecto favorito. É versátil, mas o arremesso é instável e não tão dinâmico, atleticismo mediano. Em compensação é um cara aguerrido, bom reboteiro e refinado ali perto do aro, mas de produtividade irregular. Em Gonzaga, gosto mais do japanego Rui Hachimura.

      • Cristiano Oliveira

        Japanego kkkk Realmente o Hachimura tem potencial. Valeu meu amigo!

  • Marcelo Desoxi

    Pra mim, fisicamente parecido com o Booker, só que o jogador do Suns tem um arremesso dos Deuses e isso compensa sua falta de explosão, de defesa e de atleticismo.