Jumper Brasil Discute – Reflexões sobre a trade deadline

A trade deadline desse ano teve todos os ingredientes que espera-se de um último dia de janela de transferências na NBA. Então, vamos falar de negócios!

Reunimos quatro integrantes da equipe do Jumper Brasil e um convidado especial (Vitor Camargo, do podcast “Na Era do Garrafão) para discutir algumas perguntas que foram levantadas pelas trocas concluídas na semana final de mercado aberto na liga. Essas questões foram inspiradas, em especial, em debates vistos entre a crônica especializada norte-americana.

O que realmente parece muito claro sobre os times e jogadores envolvidos na trade deadline? E o que pode ser mais discutível do que muita gente imagina, a princípio? É o que vamos discutir agora…

 

1. Nós temos certeza que D’Angelo Russell é muito melhor jogador do que Andrew Wiggins?

Gustavo Lima: Não diria muito melhor, mas, em cinco temporadas, vimos Russell evoluir anualmente e tornar-se um all-star. Já Wiggins passa a impressão de ter se acomodado em seis anos na liga. Talvez, em uma franquia com cultura vencedora, ele possa elevar seu jogo e atuar com mais “sangue nos olhos”.

Vitor Camargo: Sim. Mas será que essa diferença justifica ceder uma valiosíssima escolha de primeira rodada no forte draft de 2021? Não tenho certeza, até porque dificilmente Wiggins será o mesmo jogador de Minnesota agora. Ele nunca vai ser um astro, mas, no time certo, acredito que possa ser um valioso role player – e o Warriors, claramente, também pensa.

Gustavo Freitas: Sim. Enquanto Russell teve a chance de ser o principal jogador de uma franquia, foi eleito para o Jogo das Estrelas e levou seu time aos playoffs, Wiggins jamais atingiu aquele potencial que ouvíamos falar na época de basquete universitário – e, isso, mesmo atuando ao lado de caras como Karl-Anthony Towns e Jimmy Butler.

Ricardo Romanelli: Sim. E o responsável por isso é Wiggins, que sempre pareceu pouco motivado em sua carreira na NBA. Seu aproveitamento de arremessos não é animador para o estilo de jogo do Warriors, além disso. Russell, por mais que tenha limitações, já mostrou capacidade de aprender e crescer. Em Minnesota, seu ânimo e encaixe devem ser melhores do que em sua curta passagem por San Francisco.

Ricardo Stabolito Jr.: Sim. Russell é um dos mais habilidosos criadores a partir do pick-and-roll da liga, enquanto Wiggins é um dos mais insípidos jogadores com média de 23 pontos por jogo que já vi atuar. A reflexão que pode ser feita aqui é que o ala é um encaixe mais adequado e peça mais necessária para o Warriors completo do que o armador.

 

2. Andre Iguodala realmente sobe o patamar do Heat na disputa por títulos?

Gustavo Lima: Sim, caso esteja em boa forma física. Iguodala pode ser uma peça importante na rotação, especialmente no lado defensivo da quadra, enquanto traz qualidades como seu histórico vencedor, experiência e (ótima) influência dentro do vestiário.

Vitor Camargo: Não. O Heat é melhor com Iguodala, claro, mas não o vejo como a contratação que vai colocar o time próximo do Bucks ou “descolado” da disputa entre as segunda e sexta posições do Leste. É verdade também que o veterano costuma elevar seu jogo nos playoffs, então pode ser bom aguardar!

Gustavo Freitas: Sim. Iguodala tem experiência de sobra para ajudar uma equipe com bastante potencial, está há muitos anos competindo no mais alto nível da liga e é um profissional que sabe performar quando a partida realmente vale. No lado defensivo da quadra, em especial, pode ser um diferencial.  

Ricardo Romanelli: Não. Eu não entendo tanta badalação em torno de Iguodala nessa temporada: ele já tem 36 anos e pareceu bem envelhecido nos playoffs do ano passado. O Heat também já possui várias opções para as alas, de movo que acredito que será mais valioso no vestiário do que em quadra, a esta altura.

Ricardo Stabolito Jr.: Não. Iguodala sabe jogar basquete, mas, aos 36 anos, eu tenho dificuldades para vê-lo com esse tipo de status e impacto em uma equipe que não é favorita ao título. Sua maior contribuição, provavelmente, é ser uma peça experiente e vencedora em um grupo ainda essencialmente jovem.

 

3. Andre Drummond só vale contratos expirantes e uma escolha de segunda rodada de draft?

Gustavo Lima: Não. Apesar da perda de espaço e baixo valor de mercado de pivôs na NBA atual, Drummond foi desrespeitado nessa transação. O Pistons passou uma mensagem clara: não queremos pagar US$30 milhões na próxima temporada para um pivô “old school”. No time e situação certos, porém, ele tem muito valor.

Vitor Camargo: Sim, pelo visto. É uma troca vergonhosa, infelizmente, para todos os envolvidos: o Pistons mostra mais uma vez propensão a não maximizar o valor do que faz, enquanto o Cavaliers preenche seu espaço salarial com um atleta que dificilmente faz qualquer sentido em seu processo de reconstrução.

Gustavo Freitas: Não. Não mesmo. Se Marcus Morris rendeu uma escolha de 1ª rodada, Drummond precisa ser visto com mais valor. O pivô até poderá ser agente livre e possui um contrato caro, sim, mas o Pistons deu mole. Poderia e deveria ter recebido mais do que isso.

Ricardo Romanelli: Não. A questão aqui é financeira e, pelo custo correto, quase todos os times da NBA gostariam de contar com Drummond. Na NBA de hoje, só os pivôs mais dominantes conseguem ter um impacto no jogo que justifique os US$28 milhões que ele receberá na próxima temporada. Dinheiro investido em atletas de garrafão, no fim das contas, não traz tanto retorno quanto em atletas de perímetro.

Ricardo Stabolito Jr.: Não. Esse é o valor de um pivô na NBA atual, com contrato ruim e cujo time quer desesperadamente repassar. Acho que a situação pesa muito mais do que o nome, nesse caso. Hoje, por sinal, Drummond soa subestimado para mim: é o melhor reboteiro do jogo e alguém que melhorou sensivelmente ao longo da carreira, física (mais leve, ágil) e tecnicamente (passe, noção defensiva).

 

4. O Clippers estará mesmo melhor com Marcus Morris no lugar de Maurice Harkless?

Gustavo Lima: Sim. Morris é mais jogador do que Harkless, um bom defensor que oferece versatilidade ofensiva. O ala enviado para o Knicks, essencialmente, ajuda na defesa. Os angelinos sobem de patamar com essa troca e chegarão fortes aos playoffs.

Vitor Camargo: Não tenho certeza. Morris está convertendo 44% dos arremessos de três pontos e oferece mais um marcador para usar contra LeBron, mas também está em um ano péssimo defensivo e segura demais a bola – o que mais prejudica do que ajuda. De certa forma, a maior vantagem do negócio para o Clippers foi mantê-lo longe do Lakers.

Gustavo Freitas: Sim – e por muito. O Clippers conseguiu um ala com capacidade para pontuar e defender com igual qualidade. Morris fez uma grande metade inicial de temporada e, em um time pronto para vencer agora – e não o Knicks –, será um upgrade considerável.

Ricardo Romanelli: Sim e não. Embora Morris seja superior a Harkless, essa troca não resolve o principal problema da equipe (defesa de garrafão) e traz mais um ala de encaixe bem questionável ao lado de outros que adoram operar com a bola nas mãos (Kawhi Leonard e Paul George). É um reforço, porém, que os torna matchup ainda mais complicado para seu maior oponente pelo título do Oeste – o Lakers.

Ricardo Stabolito Jr.: Não. Eu adoro Morris, que é mais jogador do que Harkless. Mas, em uma equipe que já conta com Kawhi Leonard e Paul George, prefiro ter um marcador mais aplicado que mova-se sem a bola no ataque do que mais um grande definidor que adora operar com a bola nas mãos. É uma questão de encaixe.

 

5. Trocar Clint Capela por Robert Covington e adotar o “super small ball” foi a decisão correta para o Rockets?

Gustavo Lima: Esse experimento é uma incógnita. Ganhar partidas na temporada regular é muito diferente da condição dos playoffs, em que times fazem ajustes e recomenda-se mais variações de jogadas/formações. Pode ser que eu esteja bem equivocado, mas a tendência é que sofram em duelos contra pivôs como Nikola Jokic, Rudy Gobert e Anthony Davis.

Vitor Camargo: Sim. Mas, para mim, trata-se menos de aposta nesse small ball e mais da necessidade de trazer chutadores. Contratar Westbrook tem consequências e uma delas é a urgência em ter arremessadores em todas as posições em quadra, o tempo inteiro. Recorrer a essa formação foi só a forma que Houston encontrou para reforçar-se.

Gustavo Freitas: Não. A direção do Rockets está trabalhando, mas não sei se todo mundo “aberto” em quadra é a resposta. Pode até funcionar, vencer, mas não fico convencido. A tendência é que, nos playoffs, abdicar dos pivôs cobre seu preço ao enfrentar os jogadores “de verdade” da posição em um ritmo mais lento.

Ricardo Romanelli: Não. Vale a mesma explicação do caso Drummond: o Rockets enxergou ser muito mais eficiente investir em alas do que pivôs hoje. O erro foi não trazer outro jogador de garrafão, mais barato. Apesar da proposta revolucionária, a franquia é a primeira na fila para assinar com um pivô que seja dispensado. Se for para os playoffs assim, terá dificuldades em uma conferência que conta com Nikola Jokic, Rudy Gobert e Anthony Davis.

Ricardo Stabolito Jr.: Sim. Mas o Rockets não tinha alternativa também: o elenco precisava de mudanças, Capela era o melhor ativo “trocável” que tinham e a equipe precisa muito mais de alas arremessadores do que pivôs no momento. Além disso, veja todos os momentos mais críticos de Houston em playoffs recentes e dava para notar que esse seria o recurso final.

Ricardo Stabolito Jr.
Ricardo Stabolito Jr.
Jornalista de 27 anos. Natural de São Bernardo do Campo, mas vive em Salvador há mais de uma década.