GM do Rockets causa polêmica e estremece relações entre NBA e China

Na última sexta-feira (4), o gerente-geral do Houston Rockets, Daryl Morey, foi pivô de uma polêmica que estremeceu as relações entre a NBA e a China. Após publicar em sua conta do Twitter uma mensagem de apoio às manifestações de Hong Kong, o dirigente foi alvo de críticas por grande parte da comunidade chinesa. A publicação de Morey continha os seguintes dizeres: “Lute pela liberdade. Apoie Hong Kong”.

Em 1997, Hong Kong deixou de ser colônia da Inglaterra e foi incorporada à China. A partir de então, movimentos de independência foram intensificados na comunidade local. Para complicar ainda mais a situação, desde fevereiro deste ano, a ilha convive com constantes manifestações contrárias a um projeto de lei que prevê a extradição de pessoas acusadas por crimes para a China. Na visão de determinados grupos, o projeto traria brechas para que o governo se valesse de medidas arbitrárias que ferissem a democracia e a liberdade de expressão.

Embora deletada momentos depois, a postagem de Morey já tinha causado alvoroço no mercado chinês, no qual muitas empresas são grandes parceiras de negócio da NBA. O dirigente tentou neutralizar as consequências de sua manifestação através de uma retratação, afirmando que se tratava de uma posição pessoal, sem qualquer intenção de ofender fãs ou patrocinadores. “Eu apenas manifestei minha opinião, baseada em uma interpretação, de uma situação complicada”, afirmou o gerente geral. “Os tuítes são meus e de forma alguma representam o Rockets ou a NBA”, continuou.

A polêmica levou o dono da franquia de Houston, Tilman Fertitta, a se manifestar em suas redes sociais, afirmando que a opinião de Morey não representa a franquia do Texas. “Ouçam, Morey não fala pelo Houston Rockets. Nossa presença em Tóquio visa a promoção da NBA internacionalmente e nós não somos uma organização política”, sentenciou o proprietário.

O diretor de comunicações da NBA, Mike Bass, também tentou amenizar as consequências da manifestação do gerente-geral do Rockets. Ele disse que há um “enorme respeito pela história e cultura da China” e que espera que “o esporte e a NBA possam ser usados como força unificadora para superar as diferenças culturais e aproximar as pessoas”.

Em Tóquio com a equipe de Houston, outra figura importante do Rockets, o astro James Harden, se desculpou pelo acontecido em entrevista coletiva. “Nós pedimos desculpas. Você sabe, nós amamos a China, adoramos jogar lá”, disse o líder do time.

Diante do ocorrido, um antigo repórter que cobria o Houston Rockets, Yu Fu, noticiou que o banco chinês SPDB (Shanghai Pudong Development Bank), um dos maiores parceiros da franquia texana, encerrou suas ações de marketing relacionadas ao Rockets. Na sequência, outros patrocínios locais também suspenderam a parceria. Além disso, haverá boicote da mídia às transmissões do Rockets na China.

Em virtude do ocorrido, a Associação Chinesa de Basquete, que é presidida por ninguém menos que um dos maiores ídolos da história do Rockets, Yao Ming, suspendeu as relações com a franquia de Houston.

Na manhã desta terça-feira, o comissário da NBA, Adam Silver, divulgou um comunicado a respeito do imbróglio envolvendo o Rockets e a potência asiática. O homem-forte da liga demonstrou apoio à liberdade de expressão no caso de Morey.

“Nas últimas três décadas, a NBA desenvolveu uma grande afinidade pelo povo chinês. Vimos como o basquete pode ser uma forma importante de intercâmbio de pessoas que amplia os laços entre os Estados Unidos e a China. Ao mesmo tempo, reconhecemos que nossos dois países têm sistemas e crenças políticas diferentes. E, como muitas marcas globais, levamos nossos negócios a lugares com diferentes sistemas políticos em todo o mundo. Mas para aqueles que questionam nossa motivação, isso é muito mais do que expandir nossos negócios. Valores de igualdade, respeito e liberdade de expressão há muito definem a NBA – e continuarão a fazê-lo. Como uma liga de basquete americana, operando globalmente, entre as nossas maiores contribuições estão esses valores do jogo. De fato, um dos pontos fortes da NBA é a nossa diversidade – pontos de vista, origens, etnias, gêneros e religiões. Vinte e cinco por cento dos jogadores da NBA nasceram fora dos Estados Unidos e nossos colegas trabalham em escritórios da liga em todo o mundo, inclusive em Pequim, Hong Kong, Xangai e Taipei. Com essa diversidade, surge a crença de que, sejam quais forem as nossas diferenças, nos respeitamos e valorizamos; e o que temos em comum, incluindo a crença no poder do esporte de fazer a diferença, permanece nosso princípio fundamental. É inevitável que pessoas de todo o mundo – inclusive dos Estados Unidos e da China – tenham pontos de vista diferentes sobre questões diferentes. Não é papel da NBA julgar essas diferenças. No entanto, a NBA não se colocará em posição de regular o que jogadores, funcionários e proprietários de equipes dizem ou não dizem sobre essas questões. Simplesmente não conseguimos operar dessa maneira. O basquete está presente nos corações e mentes de nossos dois povos. Numa época em que as divisões entre as nações se tornam mais profundas e amplas, acreditamos que o esporte pode ser uma força unificadora que se concentra no que temos em comum como seres humanos e não em nossas diferenças”.

Logo após tomar conhecimento das palavras de Silver, a CCTV, maior emissora estatal chinesa, e que transmite os jogos da NBA para o país, não poupou críticas à postura do comissário da liga, também em um comunicado divulgado à imprensa.

“Estamos fortemente insatisfeitos e nos opomos à justificativa de Silver de apoiar o direito de livre expressão de Morey. Acreditamos que qualquer discurso que desafie a soberania nacional e a estabilidade social não está dentro do escopo da liberdade de expressão. Nós iremos investigar imediatamente toda a cooperação e negociações envolvendo a NBA”.

 

Michel Moral
Michel Moral
Piracicabano, colaborador do Jumper Brasil, professor e advogado especialista em Direito Bancário