O Jogo em Números – Edição III

Os calouros por quartos

A NBA está acompanhando uma classe privilegiada de calouros: pela primeira vez em nove anos, seis estreantes possuem média de 13.0 pontos por partida. A nível de comparação, as elogiadas classes de 1999, 2003 e 2010 só tiveram três cada. Esse sexteto é composto por Donovan Mitchell (19.6), Ben Simmons (16.4), Kyle Kuzma (15.7), Lauri Markkanen (15.3), Dennis Smith Jr. (14.8) e Jayson Tatum (13.5). Mas vamos além dos números de pontos por jogo de cada, ok?

A proposta aqui é analisar um prisma diferente: o aproveitamento nos arremessos de quadra (%FG) de cada um desses seis atletas dividido por quartos. Para ajustar a observação, o quadro a seguir também descreverá a porcentagem de arremessos totais que o jovem tenta naquele quarto (%Arr) – pois, como sabemos, não existe jogador que consiga tentar exatamente 25% de seus tiros em cada período. As maiores marcas de cada jogador estão destacadas.

Jogador 1º quarto 2º quarto 3º quarto 4º quarto
%FG %Arr %FG %Arr %FG %Arr %FG %Arr
Donovan Mitchell 40.7 24.2 41.0 21.4 46.1 25.0 46.8 29.4
Ben Simmons 56.4 28.6 45.2 24.8 53.8 23.7 54.9 22.9
Kyle
Kuzma
43.8 19.3 46.4 29.5 42.7 21.1 47.2 30.1
Lauri Markkanen 45.5 29.0 40.4 23.7 45.5 26.7 39.2 20.6
Dennis Smith Jr. 40.4 25.4 32.6 26.8 42.4 23.6 43.4 24.2
Jayson Tatum 46.3 25.2 40.5 25.0 47.0 25.2 56.1 24.6

Comparar os jogadores entre si não seria justo: todos possuem variados estilos de jogo, dados estatísticos diferentes e afins. Cada um é cada um, dentro do sucesso que já tem como estreantes. Mas há informações gerais, válidas para todos, muito evidentes que podem ser extraídas daí. Uma delas é que o jogador mais eficiente pontuando vai ser, logicamente, aquele com maior volume nos momentos em que tem melhor índice de acerto de arremessos – não importa qual seja o período.

Analisando por esse prisma, a eficiência de Mitchell, Simmons, Kuzma e Markkanen é simples e evidente: seus dados “vermelhos” estão localizados no mesmo quarto. Smith Jr., por outro lado, é o completo contrário: seu maior número de tentativas está, na verdade, quando possui o pior aproveitamento. Isso ajuda a compreender porque, entre todos, o armador do Dallas Mavericks é o único que acerta menos de 40% de suas tentativas.

E vejam também como Tatum constitui um caso muito especial: sua distribuição de arremessos por períodos é incrivelmente equilibrada. As quatro oscilam entre 24.6% e 25.2%. Por isso, provavelmente, a abordagem proposta aqui não é de muita valia para “julgá-lo”: as oscilações de aproveitamento não afetam tanto assim.

A reviravolta defensiva de Lillard

Damian Lillard é um dos melhores armadores da NBA, mas nunca foi exatamente conhecido por seu aspecto defensivo. Pelo contrário: na verdade, o craque sempre teve a marcação como o maior alvo de críticas em seu jogo. A atual temporada, no entanto, vem sendo apontada pela imprensa que cobre o Portland Trail Blazers como seu melhor rendimento defensivo na carreira. Será mesmo?

Há uma estatística muito popular que dá força a essa opinião: eficiência defensiva. Pela primeira vez na carreira, o Blazers não tem um melhor desempenho na defesa a cada 100 posses de bola com Lillard no banco do que quando ele está em quadra. Veja a comparação dos números de “ED” geral do time e com Lillard em ação.

Temporada ED Blazers ED com Lillard Diferença
2012-13 106.9 107.2 -0.3
2013-14 104.7 105.1 -0.4
2014-15 101.4 102.7 -1.3
2015-16 105.6 107.3 -1.7
2016-17 107.8 108.9 -1.1
2017-18 105.0 105.0 0 

Durant e Westbrook “trocam” estatísticas

Todos sabem que os jogadores mais altos costumam registrar mais rebotes e tocos, enquanto os mais baixos tendem a destacar-se nas assistências e roubos de bola. Pode parecer uma lógica simplista, mas é a verdade. Dois ex-colegas de elenco que hoje atuam separados, no entanto, estão tentando desafiar esses números na atual temporada: Kevin Durant e Russell Westbrook.

Durant pode tornar-se, nesta temporada, só o quarto jogador da história da NBA – e o primeiro em quase quatro décadas – a ter médias de cinco assistências e dois tocos em uma campanha completa desde 1973. Caso consiga a marca, o ala (que atualmente registra 5.5 passes decisivos e 1.94 arremessos bloqueados por jogo) faria parte de um seleto grupo que inclui:

Kareem Abdul-Jabbar (2)
Sam Lacey
Bill Walton

Westbrook, por sua vez, está em condições de virar o 12o atleta da liga desde 1973 e o primeiro em mais de uma década a acumular médias mínimas de nove rebotes e dois roubos de bola em uma temporada. Hoje, ele tem 9.4 rebotes e 1.95 roubos de bola por partida. Se chegar lá, ele fará parte de um clube que já contempla:

Hakeem Olajuwon (4)
Shawn Marion (3)
George McGinnis (2)
Fat Lever (2)
Steve Mix
Larry Kenon
Magic Johnson
Larry Bird
Charles Barkley
David Robinson
Tom Gugliotta

Desviando para a vitória

Um dos dados que o advento das tecnologias de monitoramento de movimento dos atletas em quadra trouxe foi o deflection. Popularmente considerados como o ato em que o defensor consegue desviar a bola do controle do atacante, a NBA define como “o número de vezes em que um marcador coloca as mãos na bola em uma ação do adversário que não seja arremesso”.

Quinze jogadores, atualmente, registram média de 3.0 ou mais desvios por partida – excetuando o armador Jeremy Lin, que só disputou uma partida da temporada. Eles são os expoentes da NBA neste quesito. Mas, dentre todos, quem seria aquele atleta mais ativo? É para descobrir isso que resolvemos explorar a proporção de deflections desse grupo de defensores por minuto que jogam.

Então, quem possui o maior número de desvios de bola por minuto de ação?

Jogador Desvios/jogo Minutos/jogo Desvio/min.
Paul George 4.4 36.5 0.1205
Robert Covington 3.9 32.3 0.1207
Thaddeus Young 3.7 32.7 0.1131
Andre Drummond 3.6 33.4 0.1078
Eric Bledsoe 3.5 30.8 0.1136
Jimmy Butler 3.5 37.3 0.0938
Russell Westbrook 3.5 36.2 0.0967
Victor Oladipo 3.4 34.6 0.0983
Chris Paul 3.1 31.9 0.0972
Ben Simmons 3.1 34.9 0.0888
Kris Dunn 3.1 29.4 0.1054
Jrue Holiday 3.0 36.7 0.0817
Gary Harris 3.0 34.9 0.0859
Otto Porter Jr. 3.0 31.9 0.0940
Ricky Rubio 3.0 29.3 0.1024

Paul George é o rei das deflections na NBA em números brutos e, colocando em contexto, seus dados só se tornam mais impressionantes com a proporção aqui analisada. Ele está entre os sete atletas que registram mais de 0.1 desvios por minuto, mas veja que é o único deles a atuar (bem) mais do que 33.5 minutos por jogo. Ou seja, sua média proporcional é muito mais difícil de ser mantida.

E, na verdade, o craque quase fica com a liderança da lista mesmo em desvios por minuto. Seu segundo lugar é por uma margem absolutamente ínfima para Robert Covington, um especialista defensivo com obrigações ofensivas muito menores do que George. Defender em alto nível para o atleta do Thunder sempre vai ser mais cansativo porque o time já lhe exige alta participação no ataque.

Outro destaque da lista é Andre Drummond. O astro do Pistons não é só o único pivô da lista, mas possui o quinto maior índice de deflections por minuto. A total ausência de outros jogadores da posição na relação é uma prova de como sua produtividade nesse quesito é um diferencial, independente de proporções.

A história de jogos apertados

Partidas decididas por cinco ou menos pontos são consideradas pontos críticos na análise de campanhas e rendimento das franquias, dentro das novas tendências estatísticas. Não é difícil entender o motivo: são resultados muito susceptíveis a fatores circunstanciais. Uma marcação equivocada da arbitragem ou um mísero passe errado, no fim das contas, pode ser a diferença entre um triunfo por dois pontos e uma derrota por três.

Vencer um jogo apertado é importante, mostra excelência em execução e frieza. Mas tê-los como uma constante em sua temporada pode evidenciar mais pontos negativos do que o imaginado: que esses resultados não significam mais do que números na tabela, os atletas vêm “brincando” com a sorte e o time não domina seus adversários a ponto de derrotá-los com autoridade.

A história, além do mais, aponta que equipes costumam acabar temporadas com recordes muito equilibrados nesse tipo de partidas. Então, agora, vamos ver como cada um dos times têm se saído em confrontos definidos por até cinco pontos ou na prorrogação – afinal, tempo extra significa um empate no tempo normal – na atual campanha, comparando o aproveitamento nesse tipo de jogos e geral:

Times Jogos Vitórias Derrotas Vit.
(%)
Temp. (%)
Hawks 20 7 13 35.0 30.5
Celtics 19 13 6 68.4 67.8
Nets 23 10 13 43.5 32.2
Hornets 20 7 13 35.0 42.1
Bulls 23 12 11 52.2 35.1
Cavaliers 18 11 7 61.1 60.7
Mavericks 21 5 16 23.8 31.0
Nuggets 16 8 8 50.0 55.2
Pistons 19 7 12 36.8 49.1
Warriors 11 8 3 72.7 75.9
Rockets 9 6 3 66.7 77.2
Pacers 17 11 6 64.7 56.9
Clippers 13 8 5 61.5 53.6
Lakers 16 9 7 56.2 40.4
Grizzlies 20 7 13 35.0 32.1
Heat 20 12 8 60.0 51.7
Bucks 17 11 6 64.7 56.1
Timberwolves 19 8 11 42.1 59.0
Pelicans 16 10 6 62.5 54.4
Knicks 19 7 12 36.8 39.0
Thunder 19 9 10 47.4 55.9
Magic 15 6 9 40.0 31.6
76ers 16 7 9 43.7 54.5
Suns 12 6 6 50.0 30.5
Blazers 21 11 10 52.4 55.2
Kings 15 9 6 60.0 31.6
Spurs 15 6 6 60.0 59.3
Raptors 20 10 10 50.0 71.9
Jazz 12 7 5 58.3 51.7
Wizards 19 8 11 42.1 57.9

Para começar, não é surpresa que Rockets e Warriors sejam as equipes com menos jogos apertados na liga: espera-se que os donos dos dois melhores recordes da liga dominem seus adversários e fiquem raramente em situações de pressão. E, mesmo quando colocados contra a parede, eles se saem bem – especialmente, um elenco campeão com tantos criadores quanto Golden State.

Onze times, ao todo, possuem diferença superior a 10% entre os aproveitamentos em partidas decididas por cinco ou menos pontos e geral da temporada. Um deles é o Rockets, que até pelo baixo número total e posição na classificação, excetuamos da análise. Assim, ficamos com dez:

Times Vit. (%) Temp. (%) Diferença
Nets 43.5 32.2 +11.3
Bulls 52.2 35.1 +17.1
Lakers 56.2 40.4 +15.8
Suns 50.0 30.5 +19.5
Kings 60.0 31.6 +28.4

Os cinco times com diferenças positivas significativas possuem dois aspectos bem evidentes em comum. O primeiro é que todos estão entre os dez piores recordes da liga, o que é algo até certo ponto previsível: quanto menor o aproveitamento geral da temporada, mais fácil ultrapassá-lo por uma boa margem, certo? É uma questão matemática que, por mais que não agregue à discussão, precisa ser notada.

O segundo é que são elencos majoritariamente jovens. Esse é o ponto interessante, provavelmente. Isso não deveria ser tão preponderante assim, mas a verdade é que as equipes mais jovens têm mais “gás” para fechar jogos em um calendário de jogos tão frenético quanto a NBA apresenta – em que precisa-se atuar de três a quatro vezes por semana, com constantes viagens no meio tempo. Não há tempo para descanso e, neste cenário, os “garotos” se dão melhor.

Parece que a conclusão aqui é: o físico supera tática entre as franquias que mais sobem de produção em jogos apertados.

Times Vit. (%) Temp. (%) Diferença
Pistons 36.8 49.1 -12.3
Twolves 42.1 59.0 -16.9
76ers 43.7 54.5 -10.8
Raptors 50.0 71.9 -21.9
Wizards 42.1 57.9 -15.8

O caso dos times que mais caem de produção, em termos de aproveitamento, exibe comportamentos bem mais diversos. São equipes diferentes, com recordes distintos e estilos de jogos variados. Nós só podemos fazer suposições aqui sobre o que leva a tais números.

O quinteto titular do Twolves é o mais utilizado da liga, em minutos, por uma longa margem. Entende-se, então, que possa chegar ao fim de partidas equilibradas em condições físicas ruins e, por isso, despencar. Pistons e o Wizards possuem casos possivelmente semelhantes: com limitações de elenco e contusões na campanha, têm atletas expostos a cargas pesadas de minutos e cansaço em fim de duelos.

O Sixers é o time que pior cuida da bola na NBA – com folgas, possui as maiores marcas de erros de ataque por jogo e taxa de desperdícios de posse da liga –, o que explica o rendimento por si só. O Raptors, por sua vez, é uma vítima do alto aproveitamento geral – assim como, na tabela anterior, todos eram “ajudados” pelas campanhas ruins – e um problema de ajuste de cultura: na hora de decidir partidas, os canadenses voltam a apresentar as tendências ruins de temporadas anteriores (excesso de isolation, espaçamento indevido).

 

“O Jogo em Números” é uma coluna quinzenal em que o Jumper Brasil abraça a revolução estatística da NBA. É uma abordagem diferente do habitual, que parte de dados brutos, avançados e históricos para oferecer uma nova visão e interpretação sobre o que acontece e aconteceu na liga.

Ricardo Stabolito Jr.
Ricardo Stabolito Jr.
Jornalista de 27 anos. Natural de São Bernardo do Campo, mas vive em Salvador há mais de uma década.
  • Kidd mito

    Matéria fantástica! Parabéns Stabolito!

  • Maurilei Teodoro

    Dados muito interessantes esses !!

  • Pedro Augusto Marinho

    Sensacional essa coluna!! Parabéns!

  • Maicon Gomes

    Sou muito fã das estatísticas e consequentemente desse tipo de matéria.

  • Saymon Xavier

    muito boa essa coluna…

  • TRUETHIAGO

    Excelente, como sempre. E vai bem ao encontro com vários temas que foram comentados em posts recentes: desempenho dos rookies, clutch time, melhora na defesa do Lillard…

    Que o Sixers seria um dos piores times no fechamento dos jogos e perderia muitas partidas apertadas eu cantei faz tempo, fora a dificuldade de administrar vantagens. Tanto que é um dos times com melhor margem de em 1st half, ali junto com Rockets, Warriors, Raptors e cia, e um dos piores no 2nd, com desempenho quase tão ruim quanto Kings, Suns, Knicks, enfim, são os dois extremos. Faz quartos muito bons, dignos de top teams, e outros muito ruins, que nem parece a mesma equipe.

    Em relação aos Deflections, o McConnell é outro cara que tem ótimos números nesse quesito (0,1062), sendo ainda mais impressionante por aquela envergadura praticamente negativa dele, além de quase nenhum atleticismo comparado a maioria desses caras.

    Os números do Paul George são absurdos. Considerando que o Kawhi está fora da disputa, Draymond Green não faz exatamente uma temporada brilhante defensivamente e o Gobert perdeu 1/3 dos jogos dessa temporada, fica difícil imaginar o DPOY indo para outro jogador. Embora a gente saiba que a essa premiação costuma valorizar mais os defensores de garrafão do que de perímetro, historicamente.

    • paulo hamk

      da uma olhada nos números do Andre Drummond, pra mim o DPOY da temporada até aqui.

  • Stefan Obermark

    Matéria muito interessante!

  • Rodrigo Hubinger

    Que trabalho do caramba, esses dados, seus cruzamentos e conclusões devem dar dor de cabeça, mas tenha certeza não é em vão. Parabéns mais uma vez