O Jogo em Números – Edição IV

A marca inteligente de Lonzo Ball

Sempre houve quem apostasse e duvidasse de Lonzo Ball, mas uma coisa nunca foi questionável: sua inteligência em quadra. Por isso, não é surpresa nenhuma que o armador lidere (até com considerável folga) os calouros da liga em uma estatística que é constantemente ligada ao Q.I. de basquete: a proporção de assistências por desperdícios de bola.

Hoje, Ball acumula 2.66 assistências para cada erro de ataque que comete. O índice não só o posiciona acima de novatos como Ben Simmons (2.26) e Milos Teodosic (2.23), como também só é inferior ao registrado por cinco armadores titulares da NBA neste momento: Darren Collison, Rajon Rondo, Chris Paul, Kyle Lowry e Jeff Teague.

O titular do Los Angeles Lakers vai se tornar apenas o 10º jogador deste século, se mantiver a toada atual, a anotar médias de 5.0 assistências e 2.40 passes decisivos por desperdícios em sua temporada de calouro. Confira:

Jogador

Temporada Assistências por jogo Turnovers por jogo AST/TO
Chris Paul 2005-06 7.8 2.3

3.34

Trey Burke

2013-14 5.7 1.9 3.02
Lonzo Ball 2017-18 7.1 2.7

2.66

Elfrid Payton

2014-15 6.5 2.5 2.63

Ricky Rubio

2011-12 8.2 3.2 2.56

T.J. Ford

2003-04 6.4 2.5 2.56

Derrick Rose

2008-09 6.3 2.5

2.53

Kirk Hinrich 2003-04 6.8 2.7

2.53

Raymond Felton 2005-06 5.6 2.3

2.45

Jamaal Tinsley 2001-02 8.1 3.4

2.40

Cristiano Felício, um impacto extremo

O Chicago Bulls fez uma aposta – que até agora não rendeu o que o time esperava – ao dar um contrato de quatro anos para Cristiano Felício na última offseason. Na tentativa de acelerar sua subida de produção (e tankar), o time de Illinois resolveu colocá-lo como titular após o Jogo das Estrelas. Os 12 jogos que vieram após essa decisão contam uma história impressionante.

Felício foi titular em seis dessas partidas e reservas nas outras seis. E a diferença de seu impacto nas duas condições chega a ser assustador: ele foi um verdadeiro desastre iniciando jogos, mas teve uma influência muito positiva saindo do banco de reservas. Talvez, para o pivô brasileiro, ficar entre os suplentes seja simplesmente melhor. Confira:

Condição

+/- geral do time +/- com Felício em quadra Campanha do Bulls
Titular -46 -106

1-5

 

Condição

+/- geral do time +/- com Felício em quadra Campanha do Bulls
Reserva -21 +36

3-3

Anthony Davis e seu primeiro triplo-duplo

O astro Anthony Davis conseguiu o primeiro triplo-duplo da carreira na semana passada, ao anotar 25 pontos, 11 rebotes e dez tocos na derrota contra o Utah Jazz. Essa foi a 83ª ocorrência de um TD na história da liga envolvendo pontos, rebotes e tocos desde que esses últimos passaram a ser oficialmente registrados pela liga, em 1973.

Mas vamos restringir ainda mais: Davis tornou-se só o décimo jogador da NBA a anotar um triplo-duplo com, no mínimo, 25 pontos, dez rebotes e dez tocos em todos os tempos. Eis os outros nove integrantes desse grupo:

Hakeem Olajuwon (6)
David Robinson (5)
Kareem Abdul-Jabbar (4)
Elmore Smith
Edgar Jones
Ralph Sampson
Artis Gilmore
Benoit Benjamin
Dwight Howard

Davis foi o primeiro atleta a registrar uma atuação com tais números desde 2008, quando Howard (30-19-10) havia conseguido. Antes disso, a última performance desse porte havia acontecido em abril de 1996, por Olajuwon (31-10-10).

Onde LeBron é problema no Cavs

LeBron James teve, como de costume, uma ótima performance ofensiva na última quarta-feira, na vitória do Cleveland Cavaliers sobre o Toronto Raptors. Mas, nas redes sociais, sua atuação defensiva – no primeiro tempo, especialmente – atraiu (justamente) muitas críticas. A defesa é o grande problema dos atuais campeões do Leste e, não por acaso, o astro tem sido um dos garotos-propaganda disso.

É verdade que o experiente ala já foi um candidato forte a defensor do ano na liga, mas, hoje, isso é passado longínquo. Na verdade, seu impacto defensivo na equipe nesta temporada pode ser definido como uma aberração. Perceba isso na tabela abaixo, que detalha com os índices de eficiência ofensiva (pontos anotados por 100 posses de bola) dos adversários do Cavs com e sem LeBron em quadra.

Temporada

Com LeBron Sem LeBron Diferença
2003-04 105.1 101.1

-4.0

2004-05

105.5 107.2 +1.7
2005-06 105.7 103.1

-2.6

2006-07

101.4 102.5 +1.1
2007-08 106.6 105.2

-1.4

2008-09

100.6 100.8 +0.2
2009-10 104.3 105.8

+1.5

2010-11

103.0 107.3 +4.3

2011-12

100.1 101.7 +1.6

2012-13

103.3 106.7 +3.4

2013-14

106.6 104.5 -2.1
2014-15 104.8 109.1

+4.3

2015-16 103.8 106.4

+2.6

2016-17 110.0 112.3

+2.3

2017-18 114.5 105.4

-9.1

Os números de LeBron sempre tem que ser relativizados pelo excessivo tempo que passa em quadra, o fato de sempre enfrentar os titulares dos outros times e outras razões derivadas. Mas isso é uma constante em sua carreira e essa disparidade da estatística em relação a anos anteriores não deixa de ser anormal.

Os reis do post up na NBA hoje

A imagem clássica do post up, uma equipe jogando em função do pivô de ofício que pontua de costas para a cesta, não é mais algo comum na NBA. O jogo mudou nos últimos 20 anos de forma radical. Mas o post up não morreu, lógico. Aproveitar os mismatchs próximo da cesta é algo básico no basquete. Utilizar um bom passador perto do aro é uma boa estratégia para atrair marcação e acionar chutadores no perímetro. E, claro, sempre há atletas de garrafão que sabem pontuar no post.

Mas, dentro da realidade atual da NBA, quem são os times que mais usam o post up em seu jogo? Nesta temporada, esse tipo de jogada responde por 9% ou mais das ações de apenas seis times da liga:

Time

Post ups / jogo Frequência

Spurs

12.28 11.5%

Sixers

11.80 10.6%

Knicks

10.40

9.5%

Hornets 10.29

9.3%

Timberwolves 10.03

9.3%

Kings 9.61

9.0%

E quais são os motivos para que esses times apostem tanto, em comparação com seus concorrentes, nesse tipo de situação? Analisaremos cada um dos seis casos individualmente.

As tabelas a seguir mostrarão os dados das equipes em quatro quesitos no post up: pontos por posse (PPP), conversão de arremessos de quadra (FG%), frequência de tentativas que acabam em lances livres (FT%) e frequência de lances que acabam em erros de ataque (TO%). Ao lado dos números, em parênteses, estará a posição do time entre as 30 franquias da liga na estatística específica.

MINNESOTA TIMBERWOLVES

PPP

FG% FT%

TO%

1.00 (1) 53.2 (1) 13.0 (19)

11.7 (6)

O Timberwolves é a equipe mais eficiente da liga pontuando no post up – índice de acerto e pontos por tentativa –, o que torna a presença no TOP 6 seja mais do que justificável. Ter um time alto e forte, com um dos melhores scorers de garrafão da liga (Karl-Anthony Towns) e um técnico de playbook mais “tradicionalista” (Tom Thibodeau) já é o bastante para explicar isso.

NEW YORK KNICKS

PPP

FG% FT%

TO%

0.93 (5) 47.8 (6) 14.0 (13)

12.9 (12)

O Knicks também está entre os times mais eficientes da liga produzindo no post up e figura na metade de cima do ranking dos quatro quesitos. É uma equipe que não só pontua bem, com alto aproveitamento, mas também vai à linha do lance livre em boa frequência e comete poucos erros. Esse é um reflexo possível de ter um jovem pivô como Kristaps Porzingis ancorando seu ataque.

SAN ANTONIO SPURS

PPP

FG% FT%

TO%

0.93 (5) 45.4 (20) 14.0 (13)

8.4 (1)

O Spurs também está entre os líderes de pontos por posse em post ups, mas segue em uma linha diferente dos casos anteriores: seu aproveitamento de arremessos é baixo, mas sua taxa de erros é ridiculamente baixa. Ridiculamente. O segundo em TO% é o Dallas Mavericks, com 10.7. Essa diferença de 2.3 pontos percentuais é equivalente à diferença do Mavs para o 13º colocado no quesito, Detroit Pistons.

Para o time de San Antonio, a lógica é simples: mesmo que não se tenha brilhante conversão, quase todas as bolas que vão para o post vão gerar, pelo menos, um arremesso. Certo ou errado, isso é melhor do que simplesmente não arremessar.

PHILADELPHIA 76ERS

PPP

FG% FT%

TO%

0.90 (12) 47.8 (6) 18.6 (1)

17.7 (29)

O Sixers é o caso mais particular dessa lista. Espera-se que o time esteja na ponta do uso de post ups quando conta com um pivô como Joel Embiid e um armador tão alto quanto Ben Simmons, mas a produtividade não é tão alta quanto sua eficiência sugere. A equipe possui o sexto maior aproveitamento em tais jogadas e ainda é o que mais cava lances livres a partir de post ups, o que traz um componente extra importante em “pendurar” adversários com faltas.

Mas, ao contrário do Spurs, o Sixers joga posses fora compulsoriamente no post. É a segunda equipe que mais comete erros em proporção (a frente só de um Atlanta Hawks que usa ínfimas 1.2% das posses em post up, menor porcentagem da liga), o que “afoga” o índice de pontos por posse mesmo com um aproveitamento alto e muitos lances livres.

Time

PPP FG% FT% TO%

Hornets

0.81 (26) 43.5 (25) 15.3 (8)

14.3 (18)

Kings 0.82 (25) 42.8 (26) 11.9 (23)

12.2 (9)

Kings e Hornets são casos mais difíceis de serem explicados. Os dados não trazem grandes evidências sobre os benefícios do uso de post ups, mas a análise do elenco dá boas pistas: esses são dois dos times com mais atletas de garrafão de ofício em suas rotações. Dwight Howard e Zach Randolph são dois dos sete atletas com mais posses no post por jogo na temporada.

Ainda assim, note como essa contingência de material humano leva os dois times a jogar de uma forma que não se mostra nem particularmente produtiva, tampouco eficiente.

 

“O Jogo em Números” é a coluna em que o Jumper Brasil abraça a revolução estatística da NBA. É uma abordagem diferente do habitual, que parte de dados brutos, avançados e históricos para oferecer uma nova visão e interpretação sobre o que acontece e aconteceu na liga.

Ricardo Stabolito Jr.
Ricardo Stabolito Jr.
Jornalista de 27 anos. Natural de São Bernardo do Campo, mas vive em Salvador há mais de uma década.
  • Muito bom (again)

  • RL23

    Sensacional
    👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

  • vsr.snake

    Lebrão hoje não aguenta defender regularmente, a não ser que ele esteja disposto a diminuir sua produção ofensiva. Como o time tá capengando pra se acertar coletivamente, ele ainda tem que carregar o time no ataque, logo não o veremos defender tão cedo. Voltamos ao Cavs 2007, só que com um Lebron 11 anos mais velho e um time com uma defesa patética, visto que o Cavs daquela época tinha uma das melhores defesa da liga.

  • chateadi

    Obrigado

  • Sérgio Menezes

    Muito legal. Cavaliers tem de esconder o Lebron na defesa para utilizar sua força no ataque. O cara que joga tantos minutos como ele e com com sua idade, não pode desempenhar a defesa de modo eficaz. O problema não é o lebron, mas sim a falta de um esquema que melhor o ajude em quadra.

  • Caseh

    Ótimo trabalho!

  • Tremeuuu

    Lonzo eh bom jogador. Mas não é jogador pra ser a segunda escolha. Jogador mediano.

    • Analisando apenas a temporada de rookie parece ser isso mesmo, analisando o todo fica claro que ele é jogador para ser uma segunda escolha e tem potencial para ser um astro. Em seu último ano no ensino médio, ele teve médias de +20 pontos +10 assistências +10 rebotes e 5 roubos por jogo, liderou sua equipe a um título estadual em uma campanha invicta e recebeu os prêmios mais importantes do high school. Na universidade ele liderou a NCAA em assistências e quebrou o recorde de UCLA de mais assistências em uma temporada, além de ter sido eleito o melhor freshman de 2016-17. Ball pode não vingar e ser um bust que ainda assim sua seleção na segunda escolha foi acertada, fazia sentido ele ser selecionado em uma posição tão alta pela carreira de sucesso que ele teve no high school e college. Vale lembrar que ele sempre foi classificado como um projeto de médio a longo prazo, e sua temporada vai sendo o que os analistas projetaram, hoje ele é mediano mesmo e por enquanto tudo bem, resta saber o quanto ele evoluirá nos próximos anos.