Rumornelli Especial – Entenda a situação de Anthony Davis

Por Ricardo Romanelli

Nas últimas 24 horas, uma notícia tomou conta da NBA: Anthony Davis, astro do New Orleans Pelicans, pediu para ser trocado. O empresário Rich Paul informou a franquia de que o atleta não pretende assinar uma extensão do atual vínculo, e que caso não seja negociado, pretende assinar com outra equipe em 2020, quando pode se tornar agente livre.

Apesar de devastadora para o Pelicans, a notícia mostra uma boa postura por parte do atleta, que dá ao time uma chance justa de tentar conseguir um bom retorno por ele. O Pelicans agora precisa lidar com a situação da melhor forma possível, mas como a situação chegou neste ponto? É o que tentamos responder em cinco perguntas, nesta edição especial da coluna.

1 – Por que ele quer ser trocado?

Anthony Davis chegou ao Pelicans em 2012, como a primeira escolha do Draft daquele ano. O time estava em reconstrução após ter trocado seu franchise player da época, Chris Paul, para o Los Angeles Clippers em 2011. O armador estava chegando ao final de seu contrato e pediu para ser negociado, devido à inabilidade da franquia em construir um time competitivo em seu redor, e é exatamente o mesmo motivo que leva Davis a fazer pedido idêntico na atualidade.

Em sete anos com AD no time, o Pelicans chegou a apenas dois playoffs, em 2014-15 e 2017-18, passando do primeiro round apenas na segunda oportunidade. É bem verdade que as lesões de Davis nos primeiros anos de carreira atrapalharam, e também que o time tentou movimentos ousados para montar um elenco forte, como a aquisição do pivô DeMarcus Cousins. Apesar do azar com a lesão devastadora que tirou Cousins da temporada passada e fez com que o time não renovasse seu contrato, também é inegável que o que o Pelicans conseguiu em termos de montagem de time neste período foi muito pouco.

Apesar de ter conseguidos boas peças nos últimos anos, no geral, o time sempre sofreu com falta de bons jogadores para a rotação e principalmente para ajudar Davis na pontuação. Além da falta de talento, jogadores que não complementavam de maneira eficiente uma das forças mais dominantes da liga nos dois lados da quadra fizeram o time patinar nestes sete anos. O atual elenco também tem pouca margem para melhora, já que não possui flexibilidade financeira e nem ativos para troca. Com tudo isso, Davis decidiu buscar um novo rumo, desejando atuar por uma franquia melhor gerida e com uma cultura vencedora, que lhe permita competir por um título da NBA.

2 – Por que agora?

Chama atenção o momento em que o pedido foi feito. Todos sabem que o melhor momento para uma troca deste porte é a offseason. Primeiro, porque o Pelicans pode explorar as possibilidades com equipes que tenham as primeiras escolhas do Draft, por exemplo, além de encontrar franquias que tenham sido eliminadas nos Playoffs mais dispostas a negociar seus melhores jogadores.

Para esta transação em especial ainda existe outro ponto peculiar. O Boston Celtics, que é ao mesmo tempo um dos maiores interessados no atleta e um dos que mais poderiam oferecer um bom retorno ao Pelicans, não pode fazer uma troca agora.

A questão é um pouco técnica, mas resumimos. Pelas regras da NBA, jogadores que estejam no fim de seu contrato de calouro podem assinar uma extensão acima do patamar normal caso atinjam alguns objetivos específicos durante os primeiros anos na liga. Esta regra é conhecida como “Rose Rule”, pois Derrick Rose foi o primeiro a se beneficiar dela. Por esta via, o atleta assina uma extensão de 30% do total da folha salarial, ao invés dos convencionais 25%. Só que uma das condições é que o time que tiver um atleta com este tipo de contrato, não pode adquirir outro que tenha assinado o mesmo vínculo. Kyrie Irving, então no Cleveland Cavaliers, assinou este contrato em 2014, assim como Anthony Davis o fez em 2015. Por conta disso, já que o Celtics adquiriu Irving na temporada passada, não pode ter outro jogador com este tipo de contrato.

Assim, a equipe de Boston precisa esperar Kyrie se tornar agente livre em 1º de julho de 2019 para poder fazer uma oferta ao Pelicans por Davis.

Mas se em julho o Pelicans pode receber ofertas melhores, porque Rich Paul e Davis fizeram o pedido agora? É simples, para forçar a mão do Los Angeles Lakers. Paul é o agente de LeBron James, e amigo do astro de longa data. Começou a carreira como empresário graças ao incentivo e patrocínio do astro, que será seu sócio quando se aposentar das quadras. A primeira tentativa deles, portanto, é forçar o Lakers a tentar fechar o negócio agora, sabendo que o pacote competitivo do Celtics está fora do jogo. Vale lembrar que o atleta possui em seu contrato um Trade Kicker de US$ 5 milhões. Este tipo de cláusula determina que a franquia deve pagar esta multa caso troque o atleta. Como ele quem fez o pedido, no entanto, ele poderia abrir mão deste direito caso o Pelicans atenda seus interesses na hora de trocá-lo. Pode não ser decisivo, mas é uma boa carta que Rich Paul pode utilizar na tentativa de manipular a situação.

Para o Pelicans, no entanto, isso pode importar pouco. A franquia sabe que o mesmo pacote que o Lakers ofertar agora também estará disponível na offseason, caso deseje. Os riscos de esperar seriam apenas a chance de uma lesão de Davis que inviabilizasse uma troca, e a impossibilidade de conseguir melhorar sua própria escolha no Draft de 2019, que seria uma consequência natural da saída imediata dele do elenco. A possibilidade de melhores ofertas na offseason e de poder tentar trocá-lo com as equipes que fiquem no topo do Draft são prêmios grandes o suficientes para justificar o risco da espera.

3 – Que tipos de pacotes serão ofertados?

Anthony Davis é, no mínimo, um dos cinco melhores jogadores da NBA nos dois lados da quadra. Tem apenas 25 anos, joga um basquete coletivo e eficiente. Isto posto, é seguro dizer que quase qualquer time trocaria seu melhor jogador por ele, se pudesse.

Para traduzir ao amigo leitor: basicamente, se seu time não tem um atleta chamado LeBron James, Steph Curry, Kevin Durant, Giannis Antetokounmpo, Kawhi Leonard ou James Harden, provavelmente neste momento o GM da franquia está disposto a trocar qualquer jogador no elenco para tentar adquirir AD.

O senso comum para este tipo de situação indica que adquirir um pacote de contratos expirantes, jovens jogadores e escolhas de Draft é o melhor caminho, e para este tipo de oferta os candidatos mais óbvios são sempre Los Angeles Lakers e Boston Celtics, pelo trabalho que vêm fazendo nos últimos anos de acumular estes ativos para caso uma oportunidade como esta apareça. Outros times jovens como New York Knicks, Chicago Bulls e Brooklyn Nets talvez conseguissem montar pacotes interessantes também, e a verdade é que o Pelicans poderia escolher dentre diversas ofertas de contratos expirantes e jovens talentos se quisesse. Com certeza nenhum dos times com estas peças se negaria a incluí-la numa troca por um atleta que ainda vai dominar a NBA por quase uma década.

No entanto, exemplos recentes de trocas de astros por jogadores mais estabelecidos podem levar o Pelicans por outro caminho. O time tem, afinal, nomes como Jrue Holiday, Julius Randle e Nikola Mirotic no elenco, e poderia se ver seduzido a tentar competir por mais alguns anos antes de obrigatoriamente se reconstruir.

Neste sentido, uma troca aos moldes daquela entre Toronto Raptors e San Antonio Spurs, envolvendo Kawhi Leonard e DeMar DeRozan, pode ser uma opção interessante. E se o Pelicans olhar para este mercado, as possibilidades são infinitas. Basicamente, quase qualquer franquia que hoje seja um time de playoffs melhoraria se substituísse seu melhor jogador por Anthony Davis. É esse o nível dele. Se um time interpretar que seu atual elenco chegou ao teto de seu potencial, e que não tem alternativas para crescer, podemos ver nomes pesadíssimos sendo oferecidos ao Pelicans na tentativa de alterar o equilíbrio de forças da liga, especialmente num Oeste tão concorrido como o atual.

4 – Qual o impacto de uma troca de Anthony Davis no panorama da NBA?

Não é nenhum exagero dizer que uma troca de Anthony Davis pode mudar todo o panorama da NBA. O Pelicans imediatamente se torna uma das franquias mais fracas da liga e principalmente do Oeste sem ele, sendo esse o primeiro efeito que veríamos. Na sequência, qualquer time que hoje já seja uma equipe de playoffs e conseguir fechar uma troca por ele, se torna um dos melhores times da liga. No Leste, qualquer time na zona de classificação aos playoffs se torna candidato às Finais da NBA, mesmo que troque seu melhor jogador por ele.

No Oeste, mesmo com o equilíbrio de forças, a chegada de Anthony Davis a quase todos os elencos poderia ser decisiva para criar uma verdadeira competição para o Golden State Warriors. É por isso que o desejo de “ser trocado para uma equipe onde possa competir por títulos” é bastante relativo. Existem muitos times que hoje podem não ser candidatos ao título, mas que adicionando Davis e mais um ou outro reforço pontual, sem dúvidas seriam. Estes times sabem disso, e não deve haver economia de esforços nas tentativas de adquirir o atleta. O um ano e meio que ele ainda tem de contrato é mais do que suficiente para qualquer boa equipe se tornar excelente com ele a bordo.

5 – Afinal, o que vai acontecer?

O cenário de hoje indica que o melhor para o Pelicans seria esperar a offseason, onde pode avaliar as ofertas do Boston Celtics e de outros times que possam alcançar a primeira escolha do Draft. O New York Knicks, por exemplo, caso alcance a primeira escolha poderia oferece-la junto a um pacote de jovens jogadores para formar uma dupla de Davis com Kristaps Porzingis, que certamente seria candidata a final de conferência no Leste. Outro candidato é o Chicago Bulls, já que Davis nasceu em Chicago. O time teria jovens ativos e uma boa escolha para oferecer, além de espaço na folha salarial para contratar mais um bom atleta na offseason.

Apesar de tudo isso, ainda faltam nove dias para a Trade Deadline e neste tempo muitas conversas devem acontecer. Pode ser que o Pelicans receba uma oferta bastante satisfatória e deseje começar logo o processo de reconstrução, ou que Rich Paul consiga negociar uma situação de resolução rápida para alcançar os objetivos alcançados. O tempo urge, e todos os interessados na situação possuem diferentes interesses na urgência da resolução da situação. Uma troca de um jogador deste nível, que já é um dos melhores da NBA antes mesmo de entrar em seu auge é algo com poucos precedentes históricos. Um bom exemplo talvez seja o de Kareem Abdul-Jabbar, que era já o melhor jogador da liga um ano mais novo que AD quando pediu para ser trocado pelo Milwaukee Bucks, em 1975. Depois de uma disputa entre Knicks e Lakers, ele acabaria sendo trocado para a franquia de Los Angeles, onde faria parte do histórico time do Showtime, fazendo dupla com Magic Johnson e comandado por Pat Riley, vencendo cinco títulos da NBA (além do que já havia conquistado com o Bucks) e mais três prêmios de MVP (somados aos três com o Bucks), se tornando o maior cestinha da história do basquete.

É este tipo de reconhecimento histórico que AD busca com a troca, tendo declarado nas últimas semanas que prefere maximizar seu legado ao invés de maximizar o dinheiro que vai receber na carreira. Caso ele seja trocado para um time que lhe dê as ferramentas para isso, as comparações com a trajetória de Kareem, um dos melhores jogadores da história do basquete, serão inevitáveis.