Trocas que mudaram a NBA: Pau Gasol vai para o Lakers

“Trocas que mudaram a NBA” é uma nova série do Jumper Brasil, especialmente iniciada nesse momento de paralisação da temporada da NBA, dedicada a analisar como se desenharam grandes trocas que alteraram os rumos da liga recentemente. O foco em trocas, em vez de contratações e drafts, foi definido pela complexidade de detalhes e segredos de negociação que comprovam a habilidade dos executivos envolvidos.

Ricardo Romanelli trará, a cada edição, uma troca analisada em partes – o contexto de times e jogadores envolvidos no momento da transação, a engenharia financeira e estrutural do negócio, as reações de torcedores, mídia e demais franquias da liga e os resultados concretos que a negociação trouxe para as equipes.

Vamos começar por uma troca que acabaria por render dois títulos da NBA ao Los Angeles Lakers: o negócio que transformou o ala-pivô Pau Gasol em companheiro de elenco do ídolo Kobe Bryant. Foi assim que o espanhol se tornou jogador da franquia angelina…

O contexto

O Lakers estava pressionado antes do início da temporada 2007-08.

Em 2004, a franquia precisou colocar ponto final nas brigas entre Shaquille O’Neal e Kobe Bryant optando por negociar o lendário pivô para o Miami Heat. A equipe ficou fora dos playoffs pela primeira vez em mais de uma década na primeira temporada liderado pelo ala-armador de 25 anos, que sofreu lesão no tornozelo e só jogou 66 partidas daquela campanha.

Na offseason seguinte, porém, as coisas pareciam destinadas a melhorar: o técnico Phil Jackson voltou ao comando da franquia, após uma temporada de afastamento, e os angelinos adquiriram o promissor pivô Andrew Bynum, de 17 anos, na loteria do draft. As mudanças não passaram de ilusão, no entanto: o time iria continuar patinando nas duas temporadas posteriores.

Kobe teve algumas das melhores marcas individuais da carreira entre 2005 e 2007, incluindo o histórico jogo de 81 pontos e a sequência de atuações com 50 ou mais pontos anotados. Mas, coletivamente, o fraco elenco de apoio foi suficiente apenas para que o Lakers chegasse aos playoffs. Vieram duas eliminações seguidas diante do Phoenix Suns, do então MVP Steve Nash, na primeira rodada do mata-mata.

As coisas ficaram ainda mais dramáticas em 2007: o melhor jogador da NBA àquela altura, Kobe teria pedido para ser negociado. A diretoria roxa e dourada começava, então, uma luta contra o tempo para melhorar seu elenco de apoio e demovê-lo da ideia de sair. Rumores sobre a possível ida do craque para o Detroit Pistons e (em especial) Chicago Bulls não paravam de crescer.

Bynum, vindo diretamente do basquete colegial, demorava para decolar na NBA. Na offseason, o ala-armador foi flagrado num vídeo amador expressando a frustração com o jovem pivô e sugerindo que ele deveria ter sido trocado em um pacote pelo veterano Jason Kidd, cogitado na temporada anterior. E isso tudo ocorria enquanto o rival Boston Celtics formava um supertime que ganharia seu 17º título da NBA.

O Celtics montou a sua equipe campeã adquirindo Kevin Garnett e Ray Allen para atuarem ao lado de Paul Pierce. Foi um golpe duro para o Lakers porque o ala-pivô do Minnesota Timberwolves havia sido o grande alvo de troca para ser dupla de Kobe em anos anteriores. Os californianos até fizeram uma oferta incluindo Lamar Odom e Bynum para o time de Minneapolis, que não foi aceita.

O jovem pivô pareceu finalmente ter despertado no início da temporada 2007-08, com ótimas atuações elevando o Lakers a uma das melhores campanhas da liga e colocando Kobe na liderança da corrida pelo prêmio de MVP da liga. Isso só durou até 08 de janeiro de 2008, quando Bynum sofreu uma fatídica lesão na patela em jogo contra o Memphis Grizzlies, liderado pelo espanhol Pau Gasol, e ficou fora do restante da campanha.

Mal sabia o astro do Grizzlies que aquela lesão mudaria a sua vida e carreira para sempre: menos de um mês mais tarde, Gasol estava a caminho de Los Angeles para suprir o “buraco” que ficaria no garrafão angelino na ausência do garoto.

A troca

Em 1º de fevereiro de 2008, o Lakers anunciou o fechamento de uma troca com o Grizzlies em que cedia o pivô Kwame Brown, o armador Jarvaris Crittenton, o ala-armador Aaron McKie, duas escolhas de primeira rodada de draft (2008 e 2010) e os direitos sobre o pivô Marc Gasol, irmão de Pau e que ainda atuava no basquete europeu, pelo astro espanhol e uma escolha de segunda rodada do recrutamento de 2010.

Na época, os principais ativos que Memphis identificou no “pacote” eram o grande contrato expirante de Brown (cerca de US$9 milhões) e o então novato Crittenton (US$1.2 milhões). McKie já havia se aposentado no ano anterior, mas a franquia ainda possuía os seus direitos e ele aceitou entrar no negócio para receber um último contrato (US$750 mil) e viabilizar que os angelinos absorvessem o vínculo de Pau Gasol, que ganhava US$13.7 milhões anuais.

A participação de McKie, por sinal, foi um marco importante na história recente dos negócios na liga: a partir dessa troca, a NBA mudou as suas regras para proibir esse tipo de manobra com atletas que já não estão mais em atividade para “bater” salários.

Crittenton era um calouro que vinha realizando boas atuações em sua temporada de estreia. As sempre exageradas comparações pré-draft diziam que ele possuía estilo de jogo similar a Dwyane Wade, um dos jovens astros mais em destaque naquele momento. Fazia sentido que o Grizzlies apostasse no armador como um ativo na reconstrução de elenco que se anunciava – por mais que, como sabemos hoje, sua carreira tenha tomado rumos desastrosos.

Marc Gasol ainda era um jogador desconhecido da maior parte do mundo da NBA e não se via como um jovem tão promissor: aos 23 anos, ele estava acima do peso na Espanha e sua carreira começava a mudar de rumo atuando pelo Girona. Foi o conto contrário de Crittenton: ninguém poderia imaginar que ele viria a ser, talvez, o maior jogador da história do Grizzlies anos mais tarde. Sua aquisição não fazia diferença na época, mas pesa na avaliação da transação hoje em dia.

O teto salarial da NBA na temporada 2007-08 era de, aproximadamente, US$55 milhões. A negociação, então, foi benéfica para o Grizzlies para “limpeza” da folha salarial: mandou seu maior salário recebendo, em contrapartida, um megacontrato expirante e um atleta promissor. Vale ressaltar que Memphis não tinha perspectiva alguma de chegar aos playoffs naquele ano já antes da troca.

As reações

A ida de Gasol para o Lakers caiu como uma bomba na NBA. Foi um choque para todos e algumas das reações foram bastante enérgicas.

A reclamação mais famosa ficou por conta de Gregg Popovich, treinador do então campeão San Antonio Spurs. “O que eles fizeram em Memphis é incompreensível. Deveria existir um comitê no escritório da liga que impedisse essas trocas que não fazem sentido algum de acontecerem. Gostaria de candidatar-me para esse comitê e teria votado ‘não’ para esse negócio”, esbravejou o veterano técnico, refletindo a opinião de parcela do público – e, acima de tudo, notando a ameaça que o Lakers representava a um possível bicampeonato do Spurs.

O então dono do Grizzlies, Michael Heisley, destacou a importância da redução da folha salarial da equipe na época. Na verdade, ele tinha a intenção de vender a organização e reduzir seu custo operacional poderia deixá-la mais atrativa para compradores em potencial. O empresário só conseguiria vender a franquia em 2012, quando o atual mandatário Robert Pera assumiu o comando.

Heisley abriu o coração naquele momento e desabafou que não existia decisão fácil nesse cenário. “A estratégia, com certeza, não é destruir o time. Honestamente, se estivesse ao meu alcance transformar o Grizzlies no Spurs, eu faria. Acho que ninguém entende como é difícil ser dono de uma franquia que está perdendo e ter todas as pessoas te criticando”, disparou.

Muitos jornalistas, fãs e fontes anônimas ao redor da NBA insinuaram que Jerry West poderia ter ajudado o Lakers na transação. O lendário executivo, que passou quase 40 anos na franquia angelina, tinha sido GM do Grizzlies até o ano anterior, quando passou o cargo para Chris Wallace. Essas acusações vieram na esteira de acusações que Danny Ainge, gerente-geral do Celtics, e Kevin McHale, dirigente do Twolves, teriam agido em conluio para enviar Garnett para o Celtics.

As chances dessas teorias serem verdade são quase nulas. As insinuações não têm lastro e devem ser fruto da frustração de outras equipes interessadas em Gasol, até porque a saída de West do Lakers foi bastante conturbada e os dois lados chegaram a trocar “farpas” pouco tempo antes do negócio acontecer.

O fato é que Chris Wallace era um gerente-geral bem mal avaliado ao redor da liga e, provavelmente, não fez um bom trabalho procurando o melhor negócio. Vários executivos comentaram que nem sabiam que Gasol estava disponível na época da troca. O próprio jogador revelou, em entrevista ao analista Zach Lowe, que achou que o GM estava fazendo algum tipo de brincadeira quando contou-lhe que havia sido trocado por seu irmão.

O ala-pivô espanhol também já reconheceu que, na época, ficou inseguro sobre a transação: ele não gostou de como as coisas terminaram em Memphis e tinha dúvidas sobre o grande palco que o Lakers representava. Preocupações que se provariam infundadas. O astro adaptou-se muito bem ao time e criou uma relação fraternal com Kobe, que durou até a morte do ídolo em janeiro de 2020.

Os resultados

Nem é preciso dizer que, para o Lakers, o resultado foi extremamente positivo. Pau Gasol acabou por ser o complemento perfeito para Kobe tanto em estilo de jogo, quanto em personalidade. A dupla formou um fortíssimo elenco com outros nomes, como Lamar Odom, Derek Fisher, Ron Artest (hoje, Metta World Peace) e o próprio Bynum para chegar a três finais consecutivas. 

Em 2008, Kobe confirmou o favoritismo e foi eleito MVP da temporada. O encaixe rápido e entrosamento instantâneo com Gasol contribuíram para esse prêmio e fontes ligadas ao Lakers disseram que o astro espanhol foi um dos atletas que compreenderam com maior facilidade o sistema/filosofia do triângulo ofensivo, empregado por Phil Jackson naquele grupo. Tudo isso não bastou, no entanto, para que os californianos derrotassem o “Big 3” do Celtics nas finais daquele ano.

Os dois anos seguintes trariam os esperados títulos da dupla: em 2009, a equipe derrotou o Orlando Magic de Dwight Howard e, no ano seguinte, se “vingaria” do Celtics em uma série de sete jogos. Esses seriam os dois últimos anéis da carreira de Kobe, que aposentou-se em 2016. Gasol ainda atuaria pelo Lakers até 2014, sendo três vezes eleito all-star e para um dos quintetos ideais da liga.

A escolha de segunda rodada de draft obtida no negócio transformou-se em Devin Ebanks, que disputou apenas 63 jogos pelo Lakers em três temporadas antes de deixar a liga.

Já para o Grizzlies, a troca revelou-se um bom vinho: ficou melhor com o passar do tempo. Kwame Brown terminou a temporada com a franquia e não teve contrato renovado, enquanto Aaron McKie permaneceu aposentado. Javaris Crittenton não impressionou e seria trocado na offseason seguinte com o Washington Wizards. Lá, com o craque Gilbert Arenas, ele teve um confronto com armas de fogo dentro do vestiário que iniciou sua rápida derrocada na liga.

As seleções de recrutamento também não deram muito retorno: Donte’ Greene foi escolhido no draft de 2008 e trocado antes mesmo de fazer um jogo pelo Grizzlies, enquanto Greivis Vasquez chegou em 2010 e disputou só uma temporada antes de ser negociado.

O retorno positivo ficou por conta de Marc Gasol mesmo – e é curioso, logicamente, que a história comece e termine para o Grizzlies com o nome da família nobre do basquete espanhol. Pau era, até então, o jogador mais talentoso que o time havia empregado em sua história (foi fundado em 1995). Mas foi com Marc, no final das contas, que Memphis realmente entrou no mapa da NBA.

O estilo dedicado, brigador e discreto de Marc ajudou a criar a imagem do “Grit and Grind”, adjetivo pelo qual as equipes lideradas pelo pivô, Mike Conley Jr. e Zach Randolph ficariam conhecidas. Ele foi três vezes all-star e eleito melhor defensor da liga atuando pela franquia, em 2013, quando chegaram à final de conferência. Foram 11 temporadas e quase 800 jogos pelo Grizzlies, onde ficou até 2019 e só sairia para ser campeão da NBA pelo Toronto Raptors.

Muito criticado no início, essa é uma troca que melhorou o destino de ambas as franquias envolvidas: ajudou a moldar a história das duas equipes e consagrou grandes nomes da história recente do basquete. Foi, assim, uma das trocas que mudaram a NBA.