Trocas que mudaram a NBA: Rasheed Wallace vai para o Pistons

“Trocas que mudaram a NBA” é uma série do Jumper Brasil dedicada a analisar como se fizeram trocas que alteraram os rumos da liga recentemente. Ricardo Romanelli trará, a cada edição, uma negociação em detalhes – o contexto de times e jogadores envolvidos no momento da transação, a engenharia financeira e estrutural do negócio, as reações de torcedores, mídia e demais franquias da liga e os resultados concretos que a troca trouxe para as equipes. 

Hoje, nós discutiremos o último passo que levou o então azarão Detroit Pistons ao histórico título da NBA em 2004: o negócio que transformou o ala-pivô Rasheed Wallace em parceiro de Ben Wallace no garrafão do Michigan. Foi assim que o polêmico jogador virou um bad boy moderno… 

O contexto 

O Pistons estava com a faca e o queijo na mão durante o draft de 2003: o time teria a segunda escolha da considerada melhor classe da década, que incluía futuros membros do Hall da Fama como LeBron James, Carmelo Anthony, Dwyane Wade e Chris Bosh. Além dos grandes talentos, outros ótimos atletas estavam à disposição: David West, Chris Kaman, Kyle Korver, Mo Williams e até o brasileiro Leandrinho Barbosa. Na prática, qualquer jogador que não fosse LeBron estaria nas mãos de Detroit.  

Mas o Pistons não era um time comum na loteria do recrutamento: o GM Joe Dumars estava à frente de uma equipe que conquistou 50 vitórias na temporada anterior e chegou às finais de conferência – perdendo para o New Jersey Nets. A segunda escolha veio de uma troca fechada em 1997, quando enviou o ala-pivô Otis Thorpe com o então Vancouver Grizzlies. 

O bom elenco havia sido formado com trocas e movimentos inteligentes, trazendo excelentes jogadores em baixa ao longo dos anos anteriores. Ben Wallace foi adquirido em uma signand-trade com o Orlando Magic, que envolveu o craque Grant Hill. Chauncey Billups chegou como agente livre após rodar por cinco times em seus cinco primeiros anos de carreira. Já Richard “Rip” Hamilton foi trazido estando pouco valorizado no Washington Wizards. 

O Pistons também apostaria em um calouro: Tayshaun Prince, ala selecionado na reta final da primeira rodada do draft de 2003 e que ganhou espaço por sua versatilidade defensiva. Para comandar aquele time, Larry Brown havia assumido a cadeira de treinador na offseason, substituindo o recém-demitido Rick Carlisle. O veterano, especialista em montar fortíssimas defesas, parecia o nome perfeito para liderar aquele elenco. 

Quatro de cinco posições no quinteto titular estavam preenchidas. Só faltava um ala-pivô, que soava como o objetivo da direção de Detroit com a segunda escolha do recrutamento. Bosh, logicamente, era uma opção. Dwyane Wade também agradava a Dumars, com maturidade para chegar jogando. Mas a franquia resolveu apostar alto: o prospecto mais misterioso do draft estava chegando da Sérvia para mexer com as estruturas de Detroit. 

Darko Milicic desembarcou em Nova Iorque, sem nem ter 18 anos e muitos olheiros estavam curiosos para ver o suposto “Wilt Chamberlain europeu”. O jornalista Chad Ford, da ESPN, foi conhecer o prospecto e indicou-lhe uma pequena faculdade de Manhattan para poder treinar. Por coincidência, em uma das quadras do mesmo campus, o elenco de Detroit preparava-se para enfrentar o Nets pelas finais do Leste de 2003. 

O time ficou sabendo que Milicic estava treinando por lá e todos foram assisti-lo. Assistentes técnicos e preparadores físicos do Pistons teriam, segundo Ford, quebrado regras da NBA e interagido com o garoto sérvio, pedindo para que fizesse treinos específicos. Dumars e sua equipe saíram impressionado dali. Trinta dias depois, com a segunda escolha do draft, a franquia ignorou os talentos norte-americanos para ficar com o europeu. 

A temporada começou e todas as peças pareciam encaixar-se dentro do esquema de Larry Brown. Bem, todos menos Milicic. Estava claro que precisavam de outro ala-pivô, alguém experiente e com personalidade, para suprir a lacuna. Elden Campbell e Mehmet Okur vinham “tapando buraco” até ali, mas era preciso um jogador mais polido ofensivamente para ser escalado ao lado do superdefensivo Ben Wallace. 

A quase 4000 quilômetros de Detroit, Rasheed Wallace não sabia qual seria o seu futuro com o Portland Trail Blazers: ele até era um grande jogador e referência no Oregon, mas a franquia caminhava sem freio para uma reconstrução. Para piorar, o polêmico ala-pivô só “empilhava” problemas: entre 2002 e 2003, ele foi suspenso por agredir um árbitro, acumulou 41 faltas técnicas em uma única temporada e recebeu advertência da NBA por fazer comentários de conotação racial acusando donos da liga de explorar jovens atletas negros. 

“Sheed”, de 29 anos, tinha um contrato expirante e buscaria seu último grande contrato. Era o fim: o gerente-geral Steve Patterson decidiu negociá-lo. O comprador foi o Atlanta Hawks, que enviou Shareef Abdur-Rahim, Theo Ratliff e Dan Dickau para ficar com o veterano e Wesley Person. O executivo, após a troca, disse estar feliz com o negócio porque “adquirimos três jogadores de bom caráter” – num claro tiro contra a conduta de Wallace. 

O Hawks havia feito a troca por mero alívio salarial, adquirindo US$24.7 milhões em vínculos expirantes na troca. O Pistons percebeu as intenções de Atlanta e Dumars agiu rápido. Depois de jogar apenas uma partida na Geórgia (onde anotou 20 pontos, seis rebotes e cinco tocos), Wallace fez novamente as malas e estava a caminho do Michigan. O quinteto titular de Detroit estava finalmente completo. 

A troca 

O Pistons desenhou uma troca tripla com o Hawks e o Boston Celtics para adquirir o seu novo astro. Os armadores Chucky Atkins e Lindsey Hunter, além de uma escolha de primeira rodada de draft, foram enviados para a equipe de Massachussets, enquanto o armador Bob Sura, o ala Chris Mills (via Boston), o pivô Zeljko Rebraca e outra seleção TOP 30 de recrutamento foram recebidos por Atlanta. Tudo isso rendeu, além de Wallace, o armador Mike James para Detroit. 

Mantendo a lógica da negociação para Atlanta, todos os contratos enviados no negócio para a franquia da Geórgia eram expirantes – com o adendo de ter recebido mais uma escolha de draft. O plano de aliviar a folha salarial seguiu de pé, portanto, com mais um ativo incorporado. Boston, igualmente, também capitalizou uma escolha na transação. 

A verdade é que, no fim das contas, o Pistons pagou bem caro pela contratação: quatro atletas e duas escolhas de primeira rodada de draft por um astro de 29 anos, com contrato expirante e histórico de problemas, é muita coisa. Dentro de pouco tempo, entretanto, ninguém estaria se importante com o preço que foi pago. A equipe estava olhando mais alto. 

As reações 

Joe Dumars sabia que havia realizado um grande negócio já em suas primeiras declarações. Ele não escondeu que, no momento que a troca estava completa, o Pistons tornou-se (ainda) mais forte e consolidado na disputa pelo título. “Isso nos dá uma chance de verdade de competir no mais alto nível da NBA. E o fato de conseguirmos fazê-lo sem mexer em nosso núcleo fez com que fosse uma oportunidade imperdível”, analisou o então gerente-geral. 

Já o gerente-geral do Hawks, Billy Knight, justificou a cessão de Wallace pela prioridade em reconstruir o elenco com juventude e austeridade. “Eu acho que é o melhor para nós. Estou tentando criar um time para o longo prazo. Rasheed é um excelente jogador, mas acho que é o melhor tanto para nós, quanto para ele, deixá-lo partir agora”, argumentou. Enquanto isso, o GM Danny Ainge comemorava a chegada de Atkins para ser o titular da armação do Celtics. 

O técnico do Cleveland Cavaliers, Paul Silas, não ficou satisfeito com o “desapego” mostrado pelo Hawks em relação ao melhor ativo que havia conseguido em uma troca realizada dias antes e criticou os dirigentes da organização. “Isso deixará o Pistons muito forte. Não sei o que se passa na cabeça de algumas pessoas”, analisou o primeiro comandante de LeBron James na liga. 

No geral, as impressões foram unânimes de que Wallace seria um grande reforço e tornaria o Pistons, definitivamente, em candidato ao título do Leste daquela temporada se mantivesse a “cabeça no lugar”. Dumars estava confiante. “Todos sabemos sobre os problemas de Rasheed. Acreditamos que ele pode nos ajudar a ir longe nos playoffs. Faz tempo que queríamos trazer um jogador de impacto e achamos que encontramos esse cara para nosso time”, elogiou o ex-atleta. 

Os resultados 

Depois de anos de boas trocas, Dumars superou-se com a adição de Wallace: ele seria titular imediato para formar um dos times mais equilibrados que a NBA viu nesse século. Billups e “Rip” Hamilton garantiam uma dupla de armação distribuída entre um jogador de excelente tomada de decisões com a bola nas mãos e outro que movimentava-se sem parar em busca de espaços para receber passes e arremessar. 

Os “Wallaces”, dentro do garrafão, também se complementavam muito bem: Rasheed era o jogador polido tecnicamente e completo taticamente que o Pistons buscava para colocar ao lado de um dos melhores defensores desse século, Ben. Eles não eram parentes, mas ficaram conhecidos como ”Irmãos Wallace”, ancorando a defesa de Detroit ao lado de um Tayshaun Prince que desenvolveu-se muito rápido como um versátil marcador de perímetro. 

A franquia chegou à final daquele ano contra o poderoso e favorito Los Angeles Lakers, de ídolos como Shaquille O’Neal, Kobe Bryant, Karl Malone, Gary Payton e o técnico Phil Jackson. Mas é verdade que aquele time estava imerso em polêmicas desde o início da temporada, o que vinha superando baseado em puro talento. Era uma base que só precisava de uma derrota para desabar. 

E o que veio não foi uma derrota. Foi um atropelo. O Pistons dominou o “talento bruto” dos outrora tricampeões, que tinham uma equipe visivelmente rachada, com uma atuação defensiva e coletiva magistral. Fez valer a alcunha de “desacreditados com potencial” com uma aplicação e disciplina tocante, em uma vitória que mudou a trajetória da carreira de todos os envolvidos naquela improvável conquista. 

Mais títulos não vieram, mas o sucesso do Pistons com aquela base continuou. A franquia ficou muito perto de conseguir defender o título, perdendo a final de 2005 para o San Antonio Spurs em sete disputados jogos. Na sequência, conseguiram mais quatro aparições em finais do Leste após temporadas com 50 ou mais vitórias – embora tenha sido derrotado em todas. A temporada mais dominante de Detroit aconteceu em 2006: a equipe venceu 64 partidas na campanha e elegeu quatro atletas para o Jogo das Estrelas (Wallaces, Billups e Hamilton). 

A equipe começaria a ser desmontada justamente em 2006, quando Ben Wallace deixou o time como agente livre e assinou com o Chicago Bulls. O Pistons “contornou” o desfalque com a chegada de bons reforços – Theo Ratliff e Antonio McDyess, notadamente – e ainda se manteve forte até o fim da campanha 2008-09. Nesse ponto, tudo ruiu de vez: Billups seria trocado em um “pacote” por Allen Iverson, experimento que deu muito errado. Para piorar, Rasheed deixou a franquia e assinou com o Celtics. 

É verdade que “Big Ben” retornou à equipe em 2010, mas já era tarde demais: só restavam Hamilton e Prince da base vencedora dos anos anteriores e bastou um ano para que o ala-armador se despedisse de Michigan, partindo para Chicago. 

Já Milicic, prodígio sérvio que indiretamente causou todos os movimentos que levaram ao título de 2004, jamais engrenou na NBA. Ficou em Detroit até 2006, quando foi negociado para o Magic e passou a “rodar” nos anos posteriores. Ele acabou envolvido em várias negociações até finalizar a carreira na NBA em 2012, com o Celtics. De volta à Europa, o sérvio tentou uma (fracassada) carreira no mundo do kickboxing. Hoje, após admitir problemas com alcoolismo e depressão, o prospecto brilhante virou fazendeiro em seu país natal criando maçãs e cerejas. 

Nenhum dos atletas envolvidos na negociação com Hawks e Celtics teve grande destaque, mas aquelas duas escolhas de primeira rodada renderam. A escolha de Atlanta, que originalmente pertencia ao Milwaukee Bucks, tornou-se a 17a seleção do draft de 2004 e o ala Josh Smith. Ele foi um ala explosivo, bom defensor e parte importante do futuro do Hawks: passou quase uma década na franquia como titular, até ser agente livre e acabar assinando com o próprio Pistons. 

O outro ativo vindo de recrutamento deu ao Celtics a 25a escolha da primeira rodada daquele mesmo recrutamento. O selecionado foi o ala Tony Allen, um dos mais ferozes defensores da história moderna da NBA e eleito para seis quintetos e defesa da liga. Ele também foi campeão da NBA em 2008 com o time de Boston e virou ídolo do Memphis Grizzlies, onde teve camisa aposentada, anos depois. 

No final, essa troca envolveu diversos jogadores, times e escolhas de draft em diferentes níveis. O Pistons, logicamente, foi o grande vencedor e montou um dos times mais emblemáticos de sua história. Curiosamente, essa história começa e termina no mesmo ponto: afinal, o único aparente prejudicado por essa jornada foi Milicic, que teve a carreira “engolida” pelas expectativas criadas pela escolha de Detroit e foi o catalisador de todos os movimentos que vimos aqui.