O Charlotte Hornets é uma das gratas surpresas desta temporada atípica da NBA. Há alguns meses, poucos imaginavam que a franquia de Michael Jordan estaria brigando por vaga nos playoffs. Mas a chegada de duas peças – LaMelo Ball e Gordon Hayward – mudou o panorama da equipe, que segue em reconstrução após a saída do ídolo Kemba Walker, em 2019. O Hornets de 2020/21 é um dos times mais legais de se assistir e, neste artigo, vamos apresentar os fatores dessa evolução rápida e inesperada.

Antes de mais nada é preciso voltar ao ano de 2018. Em abril daquele ano, Jordan decidiu mudar o alto escalão das operações de basquete da franquia. Saiu Rich Cho e entrou o experiente e vencedor Mitch Kupchak. O novo manda-chuva do Hornets tem cinco títulos da NBA no currículo (como executivo), todos pelo Los Angeles Lakers, onde trabalhou como gerente-geral por 23 anos (entre 1994 e 2017). Em Charlotte, Kupchak assumiu as funções de presidente e GM, com carta branca para reformular o que fosse preciso na equipe. A primeira medida foi a troca do treinador, e o novato James Borrego foi o escolhido. Credenciado pelas três temporadas que havia trabalhado como assistente de Gregg Popovich, no San Antonio Spurs, o novo comandante da equipe chegou para o lugar de Steve Clifford e firmou contrato até 2022.

No recrutamento de 2018, Kupchak apostou no ala Miles Bridges (pick 12) e no armador Devonte’ Graham (pick 34). Ambos chegaram ao Hornets através de trocas. No mercado de agentes livres, a franquia de Charlotte conseguiu assinar um vínculo de dois anos com o experiente Tony Parker, que havia deixado o Spurs após 17 temporadas e quatro anéis de campeão. A ideia era montar um time competitivo ao redor de Kemba, que estava no último ano de contrato.

Não deu certo. O Hornets terminou na nona colocação do Leste, Parker encerrou a carreira ao final da temporada e, na offseason seguinte, Walker se transferiu para o Boston Celtics. Na negociação (sign-and-trade), a franquia de Charlotte recebeu o armador Terry Rozier. No Draft de 2019, Kupchak selecionou o ala-pivô PJ Washington (12), e os alas Cody Martin (36) e Jalen McDaniels (52). Mesmo com um elenco pior que o da temporada anterior, o Hornets voltou a terminar na nona posição.

No último recrutamento, o Hornets teve o privilégio de fazer a terceira escolha geral. Como era quase certo que Minnesota Timberwolves (Anthony Edwards) e Golden State Warriors (James Wiseman) já haviam definido os seus alvos, restava a Kupchak apostar no maior talento disponível. A opção por LaMelo se mostrou acertada logo no início. O armador causou um impacto imediato e levou holofotes para o até então apagado Hornets. Líder em assistências e terceiro cestinha da equipe, LaMelo tornou o time atrativo e mostrou um ótimo cartão de visitas.

Onze dias depois do Draft, o Hornets adquiriu o ala Gordon Hayward junto ao Celtics (via sign-and-trade). Um contrato salgado (US$120 milhões por quatro temporadas), mas necessário para um mercado pequeno ter um jogador desse calibre. E Hayward se encaixou como uma luva no esquema de Borrego. O problema é que as lesões voltaram a assolar o jogador. Por conta de uma torção no pé direito, Hayward não atua desde o dia 2 de abril. A previsão é de que ele retorne esta semana para disputar os jogos restantes da temporada regular.

Ainda na offseason, Kupchak dispensou o veterano Nicolas Batum, talvez o pior custo-benefício da história do Hornets. Em 2016, o ala francês assinou com a franquia uma extensão de US$120 milhões, válida por cinco anos. Batum só foi útil nas duas primeiras temporadas. Depois, o seu rendimento em quadra sofreu uma queda vertiginosa. Com Hayward e Bridges para a posição, era natural que ele fosse dispensado no último ano de contrato.

A temporada do Hornets

O time de Charlotte é um dos melhores para se acompanhar nesta temporada (obrigado, NBA League Pass). Joga um basquete solidário, com muita movimentação de bola (melhor da liga em pontos criados via assistências, terceiro em número de assistências e quarto em número de passes por jogo), algo que Borrego trouxe da época de Spurs. O time consegue ser eficiente na transição e na meia-quadra (terceiro em posses de bola na transição e apenas o 17º pace da liga).

LaMelo é o maestro da equipe em quadra. Ele consegue operar em diferentes velocidades e tem uma capacidade incrível de criar condições favoráveis para os companheiros. O armador de 19 anos superou tanto as expectativas que é um dos favoritos ao prêmio de novato do ano e um dos principais responsáveis pela campanha acima do esperado. LaMelo está contribuindo nos dois lados da quadra (líder do time em eficiência defensiva), e o seu arremesso também está mais consistente, algo que os scouts temiam no processo pré-Draft. Ah, e ele só precisou de dez partidas para começar a colocar o seu nome na história da liga. No último mês de janeiro, ele se tornou o atleta mais jovem a anotar um triplo-duplo na NBA.

“Um calouro de 19 anos não deveria jogar e parecer tão bom assim. O que nós estamos vendo com esse garoto é algo bastante raro. LaMelo não se ‘encolhe’ diante dos oponentes, não se intimida nos momentos importantes. É como se já estivesse competindo contra os melhores jogadores do mundo há vários anos”, destacou Borrego.

“É duro jogar com esse menino porque você nunca sabe quando os passes dele estão vindo. Ele vai distribuir a bola pelas costas, por trás da cabeça, direto no seu peito. O cara vê esse jogo muito à frente do que está acontecendo. Você precisa estar ativo e ligado constantemente, atento quando a bola está em suas mãos. É sempre bastante divertido jogar ao lado de um talento como LaMelo”, elogiou Washington.

LaMelo Ball e Terry Rozier são destaques do Hornets na temporada – Foto: Jared C. Tilton / AFP

Muito por conta da dupla LaMelo e Hayward, o Hornets é o nono time da NBA em infiltrações (drives). Além deles, vale destacar as boas temporadas de Rozier, Bridges, Washington e Malik Monk. O primeiro vive o seu auge em seis anos de NBA. Rozier é o cestinha do Hornets e o nono jogador que mais converteu bolas de três pontos em 2020/21.

Já Bridges, um mestre nas enterradas acrobáticas, se tornou um arremessador mais confiável (50,6% nos arremessos de quadra, 40,5% nas bolas de três e 86,2% nos lances livres), algo necessário para que ele elevasse o seu nível de jogo. Ele foi muito importante no período em que o Hornets ficou sem LaMelo e Hayward (lesionados). Em abril, ele acertou quase 47% dos arremessos do perímetro e sua média de pontos foi de 19,1 (segundo cestinha do time).

Washington vem fazendo um papel fundamental como pivô titular nos últimos jogos. Cody Zeller e Bismack Biyombo perderam espaço, e o jovem de 22 anos não decepcionou na nova função. Ele protege bem o aro (segunda melhor eficiência defensiva do time) e tem a capacidade de não se perder nas trocas de marcação e de espaçar a quadra (tem um aproveitamento de quase 40% do perímetro).

Monk é o principal arremessador do Hornets e está aproveitando bem o seu último ano de contrato com a franquia. Em 2020/21, o ala-armador vem angariando os seus melhores números em pontos (13,0), aproveitamento nos arremessos de quadra (46%) e aproveitamento do perímetro (43,1%), em quatro anos de NBA.

Cestinha do Hornets na última temporada, Graham perdeu minutos em quadra com a chegada da dupla LaMelo e Hayward. É o quarto principal pontuador da equipe, mas não apresentou evolução na seleção de arremessos e segue como o pior defensor do time (os números mostram isso). Será agente livre ao final da temporada e há sérias dúvidas sobre a sua permanência em Charlotte, ainda mais com o rápido sucesso de LaMelo.

Em relação ao desempenho no perímetro, a equipe de Charlotte figura entre as melhores da liga nesta temporada. O Hornets é oitavo time que mais converte bolas de três pontos por jogo (13,9) e em aproveitamento (37,7%). Além disso, é o quarto em porcentagem de pontos via bolas de três (38,1%) e em pontos na situações de spot up (o atleta fica parado em um local da quadra, recebe o passe e logo arremessa).

Aproveitamento dos principais jogadores do Hornets no perímetro

  • Malik Monk: 43,1%
  • Gordon Hayward: 41,5%
  • Miles Bridges: 40,5%
  • Terry Rozier: 39,7%
  • PJ Washington: 39,7%
  • Devonte’ Graham: 37,3%
  • LaMelo Ball: 36,8%

Além de ter um jogo atrativo, possuir bons passadores em seu elenco (LaMelo, Hayward, Rozier e Graham) e ser eficiente no perímetro, o Hornets chama a atenção pelo seu desempenho no clutch time (últimos cinco minutos de jogo em que a diferença no placar é de, no máximo, cinco pontos). Confira os números abaixo e fique maravilhado com o poder de decisão do time de Charlotte:

Hornets no clutch time em 2020/21

  • Porcentagem de vitórias: 65,4% (quinto)
  • Aproveitamento nos arremessos de quadra: 50,7% (segundo)
  • Bolas de três pontos convertidas: 1,3 (melhor)
  • Aproveitamento nas bolas de três pontos: 44,2% (segundo)
  • Eficiência ofensiva 132,8 (melhor)
  • Eficiência defensiva: 98,8 (segundo)
  • Net Rating (saldo de pontos a cada 100 posses de bola): 34,0 (melhor)
  • Pontos sofridos: 6,3 (melhor)
  • Eficiência nos arremessos de quadra: 62,5% (melhor)
  • Assist/ratio (porcentagem de posses de bola que terminam em assistências): 18,2 (melhor)
  • True shooting % (estatística avançada que mede a eficiência do arremesso): 67,9% (melhor)

Para a próxima temporada, o Hornets tem sete atletas com contratos garantidos. Dentre as principais peças da rotação atual, Monk e Graham serão agentes livres restritos e Zeller e Biyombo irrestritos. Por enquanto, a folha salarial da equipe será de pouco menos de US$80 milhões. A projeção é de que o teto salarial da NBA, em 2021/22, seja de US$112 milhões. No próximo Draft, o time de Charlotte terá uma escolha de primeira rodada e duas de segundo round. Kupchak já mostrou que vai bem nos recrutamentos…

Atletas com contratos garantidos na próxima temporada

  • Gordon Hayward (SG/SF, 31 anos): US$29,9 milhões
  • Terry Rozier (PG/SG, 27 anos): expirante de US$17,9 milhões
  • LaMelo Ball (PG, 19 anos): US$8,2 milhões
  • PJ Washington (PF/C, 22 anos): US$4,2 milhões
  • Miles Bridges (SF/PF, 23 anos): expirante de US$5,4 milhões
  • Cody Martin (SG/SF, 25 anos): US$1,8 milhão
  • Vernon Carey (C, 20 anos): US$1,5 milhão

A reconstrução do elenco, que parecia ser longa após a saída de Kemba, já rende bons frutos em Charlotte. A base jovem da equipe é muito talentosa, tem um veterano que faz de tudo um pouco em quadra (mas que precisa se manter saudável) e a folha salarial não é motivo de preocupação.

Em 2020/21, o Hornets voltou a ser respeitado pelos adversários e deixou de ser alvo de chacota. Atualmente, o time ocupa a oitava colocação na Conferência Leste (31-33), sendo que já figurou entre os cinco primeiros em determinados momentos da temporada. Pelo menos a disputa do play-in (repescagem) é quase garantida. Como disse lá no início, essa campanha é surpreendente, já que a expectativa na offseason passada não era das melhores.

Restam oito partidas para o encerramento da fase regular e, mais do que nunca, a prioridade do Hornets será chegar à pós-temporada depois de cinco anos. Mesmo que não avance de fase nos playoffs (o que é mais provável que aconteça), a franquia de Michael Jordan já deixou claro que está no caminho certo para se tornar um time confiável e competitivo para os próximos anos.