Uma reportagem explosiva e bem detalhada da ESPN, divulgada nesta quinta-feira (4), traz à tona diversas acusações de racismo e misoginia contra Robert Sarver, dono do Phoenix Suns. O empresário, de 59 anos, comprou o Suns e o Phoenix Mercury (WNBA), em 2004, por US$404 milhões. Nascido no Arizona, ele também é proprietário do Mallorca, clube que disputa a primeira divisão do futebol da Espanha.

Conforme investigação feita pelo jornalista Baxter Holmes, durante os 17 anos da gestão de Sarver, a franquia do Arizona se tornou um local de trabalho tóxico e, às vezes, hostil. O repórter entrevistou mais de 70 funcionários e ex-funcionários do Suns.

“O nível de misoginia e racismo passou dos limites. É constrangedor”, disse um sócio minoritário do Suns.

“Não há literalmente nada que você possa me dizer sobre ele de um ponto de vista misógino ou racial que me surpreenda”, afirmou um ex-executivo de basquete do time de Phoenix.

Os entrevistados revelaram ainda que a conduta inadequada de Sarver contribuiu para construir uma cultura tóxica no Suns, afetando o modo como outros dirigentes da franquia tratavam os funcionários.

Além disso, alguns ex-funcionários confidenciaram à ESPN que Sarver é conhecido por dizer a todos que ele é “cruel” no trabalho. Essa frase teria sido repetida pelo dirigente ao longo dos anos, até mesmo em entrevistas de emprego. Sarver, inclusive, teria dito aos executivos da franquia que eles “recebem muito dinheiro para aguentar as merdas dele”.

“Ele não é ignorante. Ele age dessa maneira por causa do poder”, afirmou outro sócio minoritário do Suns.

“Se o comissário da NBA investigar e descobrir o que diabos está acontecendo em Phoenix, ele ficaria chocado”, disse um atual funcionário de operações de negócios do Suns.

Polêmicas com o ex-técnico Earl Watson

Em 2016, após uma derrota em casa para o Golden State Warriors, Sarver, que é branco, teria entrado aos berros no escritório da comissão técnica e repetido várias vezes a palavra Nigga (tradução: “preto” ou “negro”, gíria depreciativa, considerada um insulto racial ao ser dita por uma pessoa branca).

“Você sabe, por que Draymond Green correu na quadra dizendo a palavra com N”?

“Você não pode dizer isso”, respondeu Earl Watson, técnico do Suns na época, que é negro e filho de uma mexicana.

“Por que diabos não posso falar isso? Draymond diz essa palavra com N”, replicou Sarver.

“Caramba, você não pode dizer isso”, afirmou Watson novamente.

Na offseason de 2017, Sarver teve um desentendimento com Rich Paul, dono da agência Klutch Sports e agente do treinador Watson e de Eric Bledsoe, então jogador do Suns. O dono da franquia não queria estender o contrato do armador alegando desempenho ruim de Bledsoe e dúvidas sobre a durabilidade do atleta. O agente respondeu ao dirigente afirmando que conhece o basquete e que não estavam conversando sobre tênis (esporte de infância de Sarver).

O dono do Suns teria ficado possesso com a resposta e fez uma ameaça a Paul: que ele demitiria Watson se o técnico não rompesse os laços com a Klutch. Watson ficou sabendo prontamente do caso e perguntou a Sarver se ele estava falando sério.

“Sim, eu vou te demitir. Você tem dez dias para pensar sobre isso. Então, não espere muito, viu”.

Por fim, Watson explicou a Sarver o quão problemático é um dirigente branco pedir a um treinador negro para demitir uma agência liderada por um negro (Paul).

“Sim, eu entendo que raça vocês dois são. Mas eu te pergunto: o quanto você quer seu emprego”?

“Não vou demitir a Klutch. Você pode fazer o que quiser. Você é o dono deste time, mas minha cultura não está à venda. E eu não estou à venda”, concluiu Watson.

Logo no começo da temporada 2017/18, após a disputa de apenas três jogos, Watson foi demitido por Sarver.

Racismo 

Na offseason de 2004, na primeira temporada de Sarver no comando da franquia, o Suns centrou suas forças para assinar com armador Steve Nash, que estava no Dallas Mavericks, mas que já havia atuado em Phoenix no início da carreira.

Durante uma reunião de executivos da franquia com Amare Stoudemire, então novato do ano na NBA, e o agente de Nash, Bill Duffy, ambos negros, Sarver teria feito um comentário considerado racialmente insensível. Mesmo assim, o Suns acertou a contratação de Nash.

Em 2013, a franquia efetivou Lindsey Hunter, que é negro, como treinador principal da equipe. A um executivo da franquia, Sarver teria justificado a sua escolha e repetido a palavra com N. “Esses N precisam de um N”, revelou o tal executivo.

Em 2016, Sarver novamente teria citado a raça a um executivo como a razão para contratar Watson. Na cabeça do dono do Suns, um jovem treinador negro poderia se relacionar melhor com os jogadores negros, já que poderia “falar a língua deles”.

Sarver nega as acusações

Por meio de sua equipe de advogados, Sarver negou o uso de linguagem racialmente insensível. “Nunca chamei ninguém ou qualquer grupo de pessoas da palavra N, nem me referi a ninguém ou a qualquer grupo de pessoas pela palavra N, verbalmente ou por escrito. Não uso essa palavra. É abominável e feio e denegridor e contra tudo em que acredito.”

No entanto, Sarver reconheceu ter usado a palavra uma vez, muitos anos atrás. “Em uma ocasião, um jogador usou a palavra N para descrever a importância de se protegerem uns dos outros. Eu respondi dizendo: ‘eu não diria N, diria que estamos juntos na trincheira. Um assistente técnico veio falar comigo pouco depois e me disse que eu não devia dizer a palavra N, mesmo que estivesse citando outra pessoa. Pedi desculpa imediatamente. A palavra com N nunca mais fez parte do meu vocabulário”.

Sexismo

Segundo a reportagem da ESPN, certa vez, Sarver tentou impressionar os funcionários dizendo que era um grande fã do Suns e que estava animado para comandar a franquia. Em uma reunião, o dirigente teria divulgado uma foto de sua esposa usando um biquíni do Suns, deixando todo mundo sem reação.

Mais de uma dúzia de funcionários revelaram que Sarver fazia comentários obscenos em reuniões, inclusive expondo ocasiões em que sua esposa fazia sexo oral nele. Quatro ex-funcionários disseram que, em várias dessas reuniões, Sarver afirmava que usava preservativos extragrandes.

Ex-funcionários também disseram que o dirigente perguntava aos jogadores sobre suas vidas sexuais e as proezas sexuais de seus entes queridos.

“As mulheres têm muito pouco valor. Mulheres são posses. E acho que não estamos nem perto de onde ele pensa que os homens estão”, disse uma ex-funcionária do Suns.

Em março de 2011, Sarver teria humilhado uma funcionária. Por conta da agressividade do dirigente, a mulher começou a chorar. Sarver, então, teria dito: “Por que todas as mulheres daqui choram tanto”?

Uma ex-funcionária do marketing do Suns disse à ESPN que Sarver costumava falar: “eu sou seu dono? Você é uma das minhas”?

“Ele faz você se sentir como se pertencesse a ele”, disse a ex-funcionária.

Na offseason de 2015, quando o Suns estava recrutando o agente livre LaMarcus Aldridge (que, posteriormente, fechou com o San Antonio Spurs), a franquia tomou conhecimento de que o jogador tinha filhos pequenos no Texas e que jogar perto deles era atraente.

Na ocasião, Sarver teria comentado com dois funcionários do Suns que precisava que strippers de Phoenix fossem engravidadas por jogadores da NBA. Dessa forma, esses atletas se sentiriam obrigados a jogar pelo Suns, perto dos filhos deles, dando ao time uma vantagem potencial na agência livre.

Por meio de sua equipe de advogados, Sarver negou as acusações de sexismo. “A resposta é categórica: não. Nunca disse nada assim”.

Sarver não seria o primeiro dono de franquia banido da NBA

De acordo com o repórter Jordan Schultz, do podcast Pull Up, a NBA está preparando um grande caso contra o dirigente. Há, inclusive, uma chance real de que a NBA remova Sarver do Suns à força, já que teria em mãos evidências suficientes para sustentar as acusações. Dessa forma, a franquia, que está avaliada em US$1.8 bilhão, segundo a revista Forbes, seria colocada à venda.

Por outro lado, o porta-voz da NBA, Mike Bass, disse que a liga não recebeu nenhuma reclamação de má conduta na franquia Phoenix Suns.

Essa seria o segunda acusação de racismo contra o dono de uma equipe da NBA. Em 2014, Donald Sterling, então proprietário do Los Angeles Clippers, foi banido pela liga e obrigado a vender a franquia. Posteriormente, o empresário Steve Ballmer adquiriu o Clippers pelo valor recorde de US$2 bilhões.

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