Depois de um período de ostracismo, o New York Knicks voltou a ser relevante na NBA. O time novaiorquino faz uma temporada acima das expectativas e retorna aos holofotes de forma positiva.  A equipe vem de uma sequência de oito vitórias (algo que não acontecia desde 2014) e ocupa o quarto lugar na Conferência Leste. Neste artigo vamos analisar o desempenho surpreendente do Knicks em 2020/21.

Fundada em 1946, a equipe é uma das mais tradicionais da liga. O Knicks fez parte da primeira temporada da BAA (Basketball Association of America), liga precursora da NBA, mas se tornou um gigante na década de 70. Bicampeão em 1970 e 1973, a franquia foi competitiva durante os anos 90 (sob o comando de Pat Riley e Jeff Van Gundy, e capitaneada em quadra pelo lendário pivô Patrick Ewing), e amargou insucessos nas décadas seguintes. Desde 2001, o Knicks alcançou a pós-temporada somente em cinco oportunidades e venceu apenas uma série de playoffs. Foi em 2013, contra o Boston Celtics, justamente a última aparição da franquia na fase de mata-mata. Na ocasião, o time era liderado pelo astro Carmelo Anthony.

Mesmo com gestões desastrosas, um dono odiado pela torcida (James Dolan) e vexames em quadra, o Knicks é a franquia mais valiosa da NBA pelo sexto ano consecutivo. De acordo com a revista Forbes, o valor da franquia é de US$5 bilhões, acima dos pesos pesados Golden State Warriors (US$4,7 bilhões) e Los Angeles Lakers (US$4,6 bilhões). A explicação? O Knicks está no maior e mais rico mercado esportivo do planeta: Nova York. Além disso, possui um ativo muito valioso: o Madison Square Garden, avaliado pela Forbes em US$828 milhões. Ou seja, por conta do tamanho do mercado e da capacidade de gerar receita na sua renovada arena (o que atraiu novos patrocinadores), o Knicks tem vantagem sobre as outras franquias.

Valor mercadológico à parte, a equipe novaiorquina precisava voltar a ser respeitada pelos resultados dentro de quadra. E isso começou a mudar em março do ano passado, quando o Knicks contratou o respeitado agente de atletas, Leon Rose, para comandar as operações de basquete. Ele substituiu o criticado Steve Mills no cargo de presidente da franquia. A missão de Rose era complicada, pois limpar as bobagens feitas pelos seus antecessores – Isiah Thomas, Phil Jackson e Mills -, e tornar o Knicks atrativo, demandaria algum tempo. A primeira tarefa do novo presidente era contratar um técnico de confiança, com capacidade de pelo menos montar um time competitivo. O escolhido foi o veterano Tom Thibodeau, campeão em 2008 como assistente no Celtics, e que treinou o Chicago Bulls (2010-2015) e o Minnesota Timberwolves (2016-2019). Sob o comando dele, o Bulls foi aos playoffs durante cinco temporadas seguidas, incluindo uma final de conferência (2011). Em Minnesota, Thibodeau conseguiu um feito: levou o Timberwolves de volta à pós-temporada depois de 14 anos.

Na offseason, o Knicks foi tímido. A base do time foi mantida em relação à temporada anterior. Rose contratou atletas com vínculos “amigáveis” e válidos por apenas uma temporada. Foram os casos de Alec Burks, Nerlens Noel, Taj Gibson e Elfrid Payton. E o dirigente fez o certo em não comprometer a flexibilidade salarial da equipe com jogadores medianos (algo que seus antecessores adoravam fazer). Não havia outro caminho a seguir, já que o Knicks foi ignorado como destino pelas estrelas que eram agentes livres (vide Kyrie Irving e Kevin Durant, que assinaram com o rival Brooklyn Nets).

O que mudou, essencialmente, foi o estilo de jogo da equipe. Com Thibodeau, era esperado que o Knicks jogasse em um ritmo mais cadenciado, com menos posses de bola, priorizando o jogo de meia-quadra, e tivesse uma defesa mais sólida. Bingo. O time passou da oitava pior eficiência defensiva (113,0 pontos sofridos por 100 posses de bola) para a quarta melhor defesa da liga (107,8 pontos sofridos por 100 posses de bola). E, em 2020/21, o Knicks tem o menor pace (96,46 posses de bola por partida) da NBA.

Quem assiste aos jogos do Knicks, sabe que, nesta temporada, o time vence os jogos mais por conta de sua ótima defesa do que pela produção do ataque (tem apenas a 20ª eficiência ofensiva da liga). Com 33 vitórias e 27 derrotas, o Knicks tem uma campanha positiva pela primeira vez desde 2013 e é um sério candidato a ter mando de quadra na primeira rodada dos playoffs. Algo extraordinário conseguido por Rose, Thibodeau e pelos atletas logo no primeiro ano da nova gestão.

Números do Knicks em 2020/21

Campanha: 33-27
Posição: quarto lugar na Conferência Leste

Ataque

  • Eficiência ofensiva: 109,9 pontos anotados por 100 posses de bola (20ª)
  • Média de pontos anotados por partida: 106,7 (quinto pior)
  • Pace: 96,1 posses de bola (menor da liga)
  • Aproveitamento nas bolas de três pontos: 38,3% (sexto)
  • Tentativas de bolas de três pontos por partida: 29,8 (terceiro que menos tenta)
  • Assistências: 21,3 (penúltimo)
  • Pontos de contra-ataque por partida: 8,8 (último)

Defesa

  • Eficiência defensiva: 107,8 pontos sofridos por 100 posses de bola (quarta melhor)
  • Média de pontos sofridos por partida: 104,7 (melhor)
  • Aproveitamento do adversário nas bolas de três pontos: 33,6% (melhor)
  • Aproveitamento do adversário nos arremessos de quadra: 44,2% (melhor)
  • Pontos sofridos de contra-ataque: 10,4 (segundo melhor)
  • Pontos sofridos após desperdiçar a bola: 15,5 (sexto melhor)
  • Pontos sofridos no garrafão: 43,9 (quarto melhor)
  • Cestas de quadra sofridas por partida: 37,9 (melhor)
  • Cestas de três pontos sofridas por partida: 11,9 (oitavo melhor)


Em termos individuais, vale destacar a temporada espetacular de Julius Randle. Com médias de 23,9 pontos, 10,5 pontos e 6,1 assistências, o ala-pivô de 26 anos é o favorito ao prêmio de jogador que mais evoluiu (MIP). Eu diria que são favas contadas… Randle lidera a equipe em pontos, rebotes e assistências. É o faz tudo do Knicks no ataque. Ele finaliza, inicia as ações ofensivas, cria para os companheiros (até pela falta de playmakers confiáveis no elenco). Além disso, o ala-pivô passou a ser mais engajado na defesa (e esse é um aspecto subestimado). A evolução de Randle é tanta que ele está com um aproveitamento de 41% nos arremessos do perímetro (em 5,3 tentativas por jogo). Até 2019/20, ele acertava cerca de 28% das bolas de três (em apenas 1,6 tentativa). Com toda a justiça, Randle teve o seu ótimo desempenho premiado com a primeira seleção para o Jogo das Estrelas na carreira. Hoje, inclusive, ele está no meu top 10 para o prêmio de jogador mais valioso (MVP)…

Julius Randle é o grande destaque do Knicks na temporada. Foto: Nathaniel S. Butler / AFP

Outra marca do trabalho de Thibodeau é a minutagem elevada de seus principais jogadores. Foi assim no Bulls e no Timberwolves, e é no Knicks em 2020/21. Randle é o líder da liga em minutos em quadra (2.212). Quem é o segundo? RJ Barrett, com 2.059. Terceira escolha do Draft de 2019, o ala-armador canadense também mostra sinais consideráveis de evolução no segundo ano de NBA. Em relação à temporada de calouro, ele só não melhorou no número de roubos de bola. Diminuir a quantidade de desperdícios de bola e ser mais consistente nos arremessos de média e longa distância era prioridade para Barrett. E ele conseguiu melhorar nesses dois aspectos. São 2,0 desperdícios de bola para cada 2,9 assistências (em 2019/20 eram 2,2 turnovers por 2,6 passes decisivos). Quanto ao aproveitamento nos arremessos de quadra, Barrett passou de 40,2% para 44,6%. E, no que se refere à eficiência nos arremessos do perímetro, o seu aproveitamento subiu de 32% para 38,6%. Segundo cestinha do time, o canadense está com uma média de 17,4 pontos por partida. Detalhe: Barrett tem apenas 20 anos e ainda muita margem para evoluir.

No último Draft, o Knicks conseguiu um “achado” no final da primeira rodada. Immanuel Quickley, que era projetado como pick de segunda rodada, foi adquirido pelo time novaiorquino junto ao Oklahoma City Thunder. Vigésima quinta escolha do recrutamento, o ala-armador é uma peça importante vinda do banco do reserva por conta da sua capacidade de pontuação e eficiência no perímetro (aproveitamento de quase 39% nas bolas de três). O outro prospecto selecionado no Draft, o ala-pivô Toppin, que foi a oitava escolha geral, não tem tido muito espaço na rotação da equipe. Muito por conta do sucesso de Randle, seu “concorrente” na posição. E o encaixe entre os dois não é dos melhores. Thibodeau não abre mão de ter em quadra um pivô especialista em proteger o aro (Noel/Mitchell Robinson/Gibson). Por falar em Noel, o pivô de 27 anos é o segundo na liga em eficiência defensiva, atrás somente de Rudy Gobert, do Utah Jazz. Temporada de redenção para ele…

Ainda sobre o time, Burks e Bullock também são peças importantes no esquema de Thibodeau. Com a função primordial de espaçar a quadra, ambos estão com aproveitamento acima dos 40% nos arremessos do perímetro. Burks com com 40,8% e Bullock 40,6%. Para fechar, o veterano Derrick Rose se encaixou muito bem na equipe. Adquirido no meio da temporada junto ao Detroit Pistons, o armador de 32 anos reencontrou Thibodeau em Nova York e contribui vindo do banco de reservas. Rose tem média de 13,3 pontos (terceiro cestinha do time) e está com o melhor aproveitamento nas bolas de três pontos de sua carreira (37,1%). Por conta de sua qualidade e experiência, ele sempre fecha as partidas em quadra.

Atletas com contratos garantidos para a próxima temporada

  • Julius Randle (26 anos): US$20,7 milhões (expirante)
  • RJ Barrett (20 anos): US$8,6 milhões
  • Kevin Knox (21 anos): US$5,9 milhões (expirante)
  • Obi Toppin (23 anos): US$5,1 milhões
  • Immanuel Quickley (20 anos): US$2,2 milhões
  • Mitchell Robinson (23 anos): US$1,8 milhão (expirante)

Agente livre restrito: Frank Ntilikina
Agentes livres irrestritos: Derrick Rose, Elfrid Payton, Alec Burks, Reggie Bullock, Taj Gibson, Nerlens Noel
Folha salarial para 2021/22 (até o momento): US$44,3 milhões

No Draft deste ano, o Knicks terá direito a duas escolhas de primeira rodada (a própria e a do Dallas Mavericks), que, hoje, não seriam de loteria. Com o estágio de evolução do time, é bem possível que essas picks sejam negociadas por jogadores consolidados ou envolvidas em pacotes maiores. Soma-se a isso a dificuldade histórica do Knicks em desenvolver os seus jovens atletas. Escolhas top 10 da franquia há alguns anos, Knox (9 – em 2018) e Ntilikina (8 – em 2017) têm pouco tempo de quadra e não deverão permanecer. O primeiro deverá ser trocado (vai entrar no último ano do contrato de novato). Já o francês será agente livre, com chances pequenas de ter o seu vínculo renovado com o Knicks.

Além disso, a equipe terá um espaço considerável na folha salarial para trazer reforços e renovar com peças importantes, como Rose, Burks, Bullock, Robinson e Noel. A extensão contratual de Randle também está batendo à porta e não sairá barata.

Nessa quinta-feira (22), LeBron James escreveu uma frase no Twitter que eu concordo 100%: “a NBA simplesmente fica melhor quando o Knicks está ganhando”. Uma das franquias mais tradicionais da liga, a mais valiosa, que está no maior mercado esportivo do mundo, precisa ter uma cultura vencedora. As contratações de Leon Rose e Tom Thibodeau se mostraram acertadas. Com essa dupla no comando, o Knicks pelo menos terá um time competitivo em quadra. Dificilmente, a equipe será campeã nesta temporada, mas voltar aos playoffs depois de uma longa ausência já é um primeiro passo para o resgate da autoestima da franquia e de seus torcedores. Com a continuidade do bom trabalho, não tenho dúvidas de que o Knicks vai voltar a ser, em breve, um destino atrativo para as grandes estrelas da NBA.