Após os dois triunfos da seleção brasileira masculina em Buenos Aires pelas eliminatórias da AmeriCup, contra Panamá e Paraguai, o técnico croata Aleksandar Petrovic concedeu uma entrevista exclusiva ao Jumper Brasil.

No papo, o treinador avaliou o desempenho do Brasil no Mundial da China, em 2019, contou como pretende manter a renovação do elenco da seleção nos próximos anos, disse quais as expectativas para o Pré-Olímpico, que será realizado na Croácia, e muito mais.

Confira abaixo a conversa, na íntegra, com o técnico Aleksandar Petrovic:

Divulgação/Twitter CBB

Jumper Brasil: Para começar o papo, gostaria de voltar para 2019, quando o Brasil participou da Copa do Mundo, na China. Na primeira fase do torneio, a seleção venceu os três jogos que disputou, quando desbancou a Nova Zelândia na primeira partida, a seleção de Montenegro em seguida e, logo depois, a vitória nos últimos segundos contra a Grécia, então favorita do grupo e que tinha no elenco o astro Giannis Antetokoumnpo. Já na segunda fase, o Brasil se complicou ao perder da República Tcheca por mais de 20 pontos de diferença, não conseguindo avançar de fase no campeonato. Petrovic, qual a sua avaliação da participação brasileira no Mundial e qual foi a chave do jogo para os tchecos nos vencerem? O que e se algo mudou na sua forma de conduzir a equipe após a derrota nas oitavas de final do Mundial?

Aleksandar Petrovic: “Bom, voltar a falar do Mundial de 2019 é um território muito complicado, e explicar a derrota com 100% de certeza, mais ainda. Estivemos juntos por 43 dias, isso contando a preparação e a disputa do torneio em si. Em sete jogos durante essa preparação, ganhamos os sete, contra seleções de primeiro escalão como Argentina e França, por exemplo. Já no Mundial, acabamos em primeiro no nosso grupo. Logo após a grande vitória contra a Grécia, viajamos direto durante mais de seis horas para outra cidade, onde enfrentaríamos os tchecos nas oitavas. Assim sendo, não tivemos tempo de treino ou de preparação da forma que gostaríamos, e acho que essa viagem cansativa pode ter influenciado no desempenho dos jogadores em quadra. É uma pena porque acho que esse time estava pronto para as quartas de final e para a briga por uma medalha, mas em um torneio do calibre de um Mundial, temos que estar bem preparados para todos os jogos, independente das adversidades que poderão nos atingir. O que mudou desde a derrota foi a conversa que tive com a CBB (Confederação Brasileira de Basquete). Meu intuito, durante a janela das eliminatórias da Copa América, que começara em novembro daquele mesmo ano de 2019, era rejuvenescer o elenco e dar oportunidade para alguns jovens de destaque. Essa renovação foi pensada tanto para um futuro próximo, testando esses jovens em um ambiente mais competitivo no cenário continental, como para um futuro mais longínquo, preparando esses atletas para competições importantes daqui a cinco ou dez anos.”

JB: Agora, vamos falar sobre o presente. Nas últimas semanas foi divulgada a primeira lista com 16 nomes convocados para os dois jogos das eliminatórias. Dentre algumas das novidades, o nome de Lucas Bebê, que retornou ao Brasil e atualmente defende as cores do Fortaleza Basquete Cearense, foi um dos mais comentados. Sem atuar em alto nível e com consistência nas últimas três temporadas devido a lesões e problemas psicológicos, qual foi a sua intenção em convocá-lo para essa janela de jogos? Mesmo cortado da lista final, o que você espera do pivô atuando no Brasil e para o seu futuro defendendo a seleção brasileira?

AP: “Penso que o Lucas Bebê tem algumas qualidades bem específicas que nenhum outro pivô brasileiro tem. Essa convocação serviu mais como um incentivo para que o pivô siga trabalhando firme e forte aqui no Brasil. Quando ele recuperar a sua forma física e mental, com certeza será uma atleta que poderá render bons frutos, tanto para o seu clube, o Fortaleza, como para a seleção nacional. Eu conto com a ajuda dele para ser convocado para as próximas competições que participarmos.”

JB: No último final de semana, o Brasil venceu Panamá e Paraguai pelas eliminatórias da Copa América de 2022. Como você avalia as duas partidas da seleção nessa janela? Na sua conta no Twitter, você publicou que estava contente com a classificação antecipada para o torneio continental, mas que os jogadores precisariam manter o ritmo durante os 40 minutos para não sofrer surpresas nos finais dos jogos, como quase aconteceu na partida contra o Panamá. Como você pretender dar essa consistência para seus comandados?

AP: “Quando disse para mantermos a consistência durante todo o jogo, eu quis dizer que não podemos jogar os 40 minutos só no ataque. Para achar essa consistência, precisamos de equilíbrio para fechar os jogos, principalmente impondo nosso ritmo na defesa. Não podemos relaxar na partida quando abrirmos vantagem no placar. Contra o Panamá e Paraguai, por exemplo, abrimos uma boa vantagem nos terceiros períodos, mas depois relaxamos. Quando enfrentarmos adversários mais competitivos no cenário internacional, essa queda de rendimento não será perdoada e podemos sofrer nos instantes finais do jogo. Agora estamos em busca por essa consistência, e manter a agressividade na defesa e o foco durante os 40 minutos de partida é o meu principal objetivo para as próximas janelas da FIBA.”

JB: Outro comentário que merece destaque após a partida de sábado, foi você agradecendo o trabalho do técnico Cláudio Mortari pela recuperação do basquete e da melhor forma física de Lucas Mariano. O pivô, mesmo saindo do banco nos dois jogos das eliminatórias, foi um dos destaques da seleção junto com o armador Caio Pacheco. Como você vê o futuro do pivô na seleção? Por ser alto, forte e com um arremesso consistente do perímetro, caso mantenha a boa forma e o alto nível, o camisa 28 do tricolor paulista poderá ter mais chances de atuar?

AP: “Desde a última temporada do Lucas no Botafogo, venho observando a mudança em seu estilo de jogo. No São Paulo, especificamente, durante a pré-temporada, perdeu alguns quilos e começou o Paulista mais à vontade em quadra. É um jogador grande, com ótimo arremesso e poder usá-lo espaçando a quadra é algo que me agrada. Respeitando os aspectos defensivos que ele tende a melhorar, estou muito contente com o seu desempenho nesses dois jogos e estou seguro que, caso mantenha as boas atuações em seu clube, com certeza estará no nosso radar para as próximas convocações.”

JB: Um dos maiores destaques do seu trabalho à frente da seleção é a renovação do elenco. Como exemplo, podemos citar Gui Santos, do Minas, de 18 anos, Márcio, de Franca, com também 18 anos, e o destaque dos últimos dois jogos, Caio Pacheco, que, apesar de 21 anos de idade, fez sua estreia pela seleção adulta somente nesse final de semana. Nos casos do Márcio e do Gui Santos que atuam em território nacional, como você vê a evolução desses jovens promissores dentro do basquete brasileiro? Como os clubes e a própria Liga podem auxiliar para o desenvolvimento desses atletas? Assim como Léo Meindl, que atualmente deixou o São Paulo para atuar na Europa, você acha que eles desenvolveriam melhor seu jogo atuando fora do país?

AP: “Falando de Gui Santos e do Márcio, eu tive, em 2018, a oportunidade de vê-los participar do Sul-Americano Sub-17, onde além do título, os dois se destacaram como os melhores jogadores da seleção. O Gui é um ala de grande futuro, uma joia brasileira. Em pouco tempo de convivência com ele, percebi que tem um imenso potencial e, em três ou quatro anos, tenho a certeza que ele jogará na NBA. Sobre o Márcio, na primeira convocatória, ele teve um problema com peso e uma lesão no ombro, mas depois de recuperado, tive que convocá-lo pelo ótimo início de temporada. A experiência de participar do elenco de uma seleção adulta, mesmo quando muito jovem, pode ser de fundamental importância para o futuro deles. Por isso, sempre que em condições, darei essa prioridade para os mais novos nessas convocatórias. O desabrochar dessas jovens estrelas está diretamente ligado aos clubes. Gostaria de vê-los atuar com mais constância. Não só no caso do Márcio e do Gui, que participam de dois clubes que brigam pelo título nacional, e a pouca minutagem pode ser explicada. Já as demais equipes, que não brigam ou não têm a ambição pelo título nesse primeiro momento, podem e devem dar mais oportunidades para os jovens jogadores, pois creio que eles podem ajudar suas equipes e, ao mesmo tempo, desenvolverem seu jogo pensando num futuro próximo, não só para a seleção, como para o futuro sucesso do clube que fazem parte.”

JB: Para finalizar a entrevista, gostaria de falar sobre o futuro. Sabemos que o seu principal desafio sob o comando da seleção será o Pré-Olímpico, que ocorrerá no seu país natal, na Croácia. Qual a sua expectativa pra o torneio? Nomes experientes como Marquinhos, Alex, Marcelinho Huertas e Varejão ainda estão nos planos? Sobre a participação de nomes que atuam na NBA, como Raulzinho, Cristiano Felício e Bruno Caboclo, a sua expectativa é que os três possam disputar o torneio pela seleção?

AP: “Primeiro, vamos por partes. Agora estamos pensando na janela de fevereiro da Copa América, e o planejamento será o mesmo, dar oportunidade para os mais jovens adquirirem a experiência de um torneio internacional. Sobre o Pré-Olímpico, não tem muito segredo. Só estarão os melhores jogadores conosco e, claro, conto com a participação de todos os grandes nomes que atuam também fora do Brasil. Experientes ou não, quem estiver em boa forma, com bom preparo físico, mental e desempenhando seu papel dentro de quadra, ajudando o seu clube, terá a oportunidade na competição que, com certeza, é o principal foco da nossa gestão.”

 

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