Precisamos falar sobre o Portland Trail Blazers, time que está em queda livre no Oeste. São três vitórias em 13 partidas, em abril. E cinco derrotas seguidas. Com uma campanha de 32 triunfos e 28 reveses, a equipe de Portland despencou para o sétimo lugar da conferência e, hoje, disputaria o play-in. Além disso, vê rivais diretos como Memphis Grizzlies, San Antonio Spurs e Golden State Warriors se aproximando na tabela.

O Blazers sofre ou sofreu com lesões na temporada? Sim. Jusuf Nurkic desfalcou o time em 35 jogos, CJ McCollum em outros 25.  Mas nas últimas três partidas, a equipe esteve com sua força máxima e, mesmo assim, saiu derrotada. O fato é que o rendimento do Blazers em 2020/21 está abaixo do esperado. E boa parte da culpa disso é do técnico Terry Stotts, um dos mais fortes candidatos a ser demitido ao final da temporada.

O treinador está no comando da equipe desde 2012. Nesse período, o Blazers foi sete vezes para os playoffs, com quatro eliminações na primeira rodada, duas semifinais e uma final do Oeste (2019). Com Stotts, o estilo de jogo o time de Portland é bem definido e previsível: pouca movimentação de bola, poucos passes, poucas infiltrações, poucos toques na área próxima à cesta, muito arremesso do perímetro e muita jogada de isolation. Na defesa, o Blazers é péssimo na transição defensiva, no box out (bloqueio de rebote) e na proteção do aro. A exceção nos últimos anos foi justamente em 2019, quando chegou à final de conferência. Aquele time tinha dois coadjuvantes que minimizavam os problemas defensivos (Moe Harkless e Al-Farouq Aminu), e outro que conseguia criar jogadas para os companheiros (Evan Turner). O ataque sempre foi centrado em Damian Lillard e McCollum, e nas bolas heróicas da dupla.

Desde então, o Blazers teve os seus problemas aprofundados. Piorou na movimentação de bola, na criação de jogadas e na defesa. Em três das últimas quatro temporadas, a equipe de Portland foi a pior da NBA em número de assistências. Para variar, a exceção ocorreu em 2019, quando foi o sexto pior em passes decisivos. O Blazers tem três atletas no top 20 dos que mais tentam jogadas de isolation: Carmelo Anthony (7), Lillard (11) e McCollum (17). Junto com o Brooklyn Nets, o time de Portland é o líder em isolations na temporada. Em 2019/20 foi o segundo.

Nesta temporada, o Blazers tem a segunda pior eficiência defensiva da liga, com 116,7 pontos sofridos por 100 posses de bola. Só está à frente do Sacramento Kings. Além disso, a equipe é a pior em box out (bloqueio no rebote) defensivo, a terceira que sofre mais pontos na área próxima à cesta (Enes Kanter é o alvo predileto dos ataques adversários) e a quarta que sofre mais pontos em contra-ataques. Só dois jogadores do time – Nurkic e Robert Covington – têm números positivos nas estatísticas defensivas.

Ao final da quinta derrota seguida, no último domingo, Lillard comentou sobre o péssimo momento da equipe. O astro do Blazers não poupou críticas e, inclusive, reconheceu que não está jogando bem.

“Se você não está frustrado com derrota após derrota em jogos que você acha que deveria ganhar, isso é um problema. Tenho certeza que todos nós estamos frustrados agora. Nós não somos o Brooklyn Nets. Eles têm superestrelas. Você conhece a habilidade daquele time. Um dia, eles podem ficar quentes em quadra e te expulsarem do ginásio. Não somos esse time. Estamos na vala e estamos descobrindo uma maneira de sair dela”, afirmou Lillard, após o revés para o Grizzlies.

Números do Blazers em 2020/21

  • Eficiência ofensiva: 116,2 (sexta)
  • Eficiência defensiva: 116,7 (segunda pior)
  • Pior em assistências: 20,7
  • Pior em passes feitos: 242,1
  • Pior em pontos através de assistências: 54,4
  • Líder em jogadas de isolation: 11,3 por jogo
  • Tentativas de bolas de três pontos: 41,6 (segundo)
  • Bolas de três pontos convertidas: 15,7 (segundo)
  • Aproveitamento nas bolas de três pontos: 37,7% (oitavo)
  • Tentativas de bolas de dois pontos: 49,4 (sexto pior)
  • Bolas de dois pontos convertidas: 24,9 (terceiro pior)
  • Aproveitamento nas bolas de dois pontos: 50,3% (terceiro pior)
  • Turnover: 11,3 (melhor)
  • Aproveitamento do adversário nos arremessos de quadra: 47,9% (quarto pior)
  • Aproveitamento do adversário nas bolas de dois pontos: 54,8% (terceiro pior)
  • Terceiro que leva mais cestas perto do aro: 19,6
  • Líder em box out no ataque: 2,7
  • Pior em box out na defesa: 5,8
  • Time que menos tenta infiltrações (drives): 30,3
  • Segundo que menos pontua em infiltrações (drives): 7,1 cestas
  • Pior em toques por partida: 362,0
  • Pior em toques no garrafão: 17,4
  • Segundo que menos tenta arremessos em catch and shoot (recebe a bola e arremessa): 22,8
  • Segundo que menos pontua nas situações de catch and shoot: 26,6 pontos
  • Time que mais tenta arremessos pull-up (arremesso após o drible, puxando a bola de baixo para cima): 34,9
  • Time que mais pontua em pull-up: 33,2 pontos
  • Time que menos percorre distâncias por partida: 16,99 milhas (27,3 quilômetros)
  • Quarto que sofre mais pontos em contra-ataques: 13,8
  • Sexto que sofre mais pontos em segunda chance: 14,0

Com um ataque mais do que previsível (apesar de ser o sexto em eficiência ofensiva), e uma defesa que é uma verdadeira peneira, o Blazers simplesmente não teve chances contra os melhores times de sua conferência nesta fase regular. Venceu apenas um dos 11 jogos contra os contenders do Oeste. Perdeu todos os duelos contra Utah Jazz, Phoenix Suns, Los Angeles Clippers e Denver Nuggets. O único triunfo foi no embate com o atual campeão e cansado Los Angeles Lakers, em dezembro do ano passado, no terceiro jogo da temporada.

Desempenho do Blazers contra os contenders do Oeste

Jazz: 0-2
Suns: 0-2
Clippers: 0-3
Nuggets: 0-2
Lakers: 1-1

O Blazers ainda vai disputar 12 jogos até o fim da temporada regular. Oito deles serão fora de casa, incluindo os próximos seis. Nove dos adversários que terá pela frente possuem campanhas positivas. E as três últimas partidas da equipe serão contra Jazz, Suns e Nuggets. Ou seja, o time de Portland pode cair ainda mais na tabela de classificação. Se, em boa parte da temporada, o Blazers figurou entre os seis primeiros do Oeste, nos próximos dias pode cair até para o décimo lugar e, com isso, disputar o play-in em desvantagem. Enfim, o cenário não é dos melhores.

Para 2020/21, o gerente-geral Neil Olshey até que tentou fortalecer a equipe. Trouxe Covington, um especialista defensivo, acertou o retorno de Kanter, renovou com Anthony e, por último, adquiriu Norman Powell em uma troca com o Toronto Raptors. Mas o time simplesmente não dá liga em quadra, e a culpa maior é do treinador. De que adianta trazer um pontuador como Powell se o cara mal pega na bola com esse tanto de isolation do Blazers? Stotts simplesmente não abre mão do estilo de jogo previsível, com seu ataque estagnado e a peneira defensiva. Ele não consegue extrair o melhor de seus atletas, não consegue fazer com que Lillard e McCollum sejam mais solidários em quadra, não consegue fazer com que o time defenda.

Talvez o maior erro de Olshey na temporada foi ter fechado um contrato de US$19 milhões (válido por dois anos) com o limitado Derrick Jones. Vale lembrar que, já há algumas temporadas, a folha salarial do Blazers é bastante engessada, com a franquia sempre acima do teto salarial. E isso é, em boa parte, culpa de Olshey. Gasta muito e não consegue montar um time para ficar no topo. Vale lembrar que o GM está em Portland desde 2012. Naquele ano, ele selecionou Lillard no recrutamento (sexta escolha) e contratou Stotts. Eu não ficaria surpreso se o desgastado Olshey saísse junto com o treinador ao final desta temporada…

Por conta de tudo o que foi mostrado acima, a torcida do Blazers não tem muitas esperanças nesta temporada. Já passou da hora da equipe mudar o seu estilo de jogo. Já passou da hora de ficar concentrando as ações ofensivas em Lillard e McCollum, de abusar das situações de isolation. Já passou da hora de ter uma defesa, no mínimo, decente. Para isso mudar, não resta outra opção: Stotts precisa sair.

Lillard já disse que quer encerrar a carreira no Blazers. São nove anos na franquia e o máximo que ele conseguiu foi liderar o time a uma final de conferência. Até quando vai a fidelidade / paciência dele? A diretoria da equipe de Portland tem a obrigação de montar um time competitivo ao redor de sua grande estrela. A offseason de 2021 começa em pouco mais de três meses, e as necessárias mudanças no elenco, na comissão técnica e na gerência-geral de franquia estão pedindo passagem.