Por Antonio Misquey

No interior de Goiás, mais especificamente na Cidade Ocidental, o basquete nos reservou mais um reduto de histórias. Uma quadra de décadas, a “quadra do 13”, reuniu sonhadores e amantes dos esportes, desde o handebol à nossa bola laranja. No Brasil, contudo e infelizmente, o dinheiro é inimigo de qualquer desporto que não seja futebol. E, nessa nossa história, não está sendo diferente. Está em vigor um projeto de demolição da quadra pública para a construção de um campo society no lugar, impossibilitando a prática honesta e apaixonada dos ocidentalenses. Já me corrijo, inclusive, no termo que utilizei: a quadra não é pública, e sim do público; os reais donos dela reclamam por justiça e as nossas palavras, daqui em diante, são deles e de toda comunidade que luta pela valorização do basquete no país.

Os reais donos da quadra

“Tem 19 anos que a gente frequenta aquela quadra. Ali é nossa história, nossa vida, o nosso eu, né? Nosso caráter foi formado com ajuda daquelas quadras. Com as pessoas que frequentavam lá, tanto do basquete, quanto do vôlei, do futebol, do handebol… Não é simplesmente concreto: ali tem um pedaço de cada um. Tem momentos, alegrias, tristezas. Momentos bons e ruins que vivemos ali”.

Paulo Henrique Santos, 34 anos, frequenta a quadra desde os seus 15. Nas primeiras palavras da nossa conversa era perceptível a ênfase na palavra “história”. O basquete e as relações a partir dele construídas fomentaram não só a paixão pelo desporto, mas o desenvolvimento pessoal e intelectual. Eram naqueles encontros, treinos e peladas que Paulo e sua família (aqui, ressalto que falo especificamente dos companheiros de quadra) esqueciam das dificuldades da vida para focarem em um único objetivo: fazer a bola passar por dentro do aro. E é na simplicidade do esporte que se criam paixões complexas e repentinas. Estamos falando dessa relação.

Arquivo / Paulo Henrique Santos

Paulo ressalta que a quadra é feita de referências e gerações. Jovens que lá chegam são atraídos a ficar. Foi o caso dele e de seus companheiros ao assistir os veteranos baterem bola. Veteranos como o Cláudio Reis, 46 anos, mais um importante personagem dessa história:

“A minha história no basquete se confunde muito com a nossa história nessa quadra. Cheguei a jogar em clube, por ajuda de um vizinho. Cheguei à seleção do Distrito Federal, joguei pelo clube do exército também, fiz teste no Vizinhança… Essa quadra, na Cidade Ocidental, a gente sempre teve dificuldade. Começou numa rua que fica próxima a essa quadra, a gente montou uma tabela de street ball, no início da década de 90. A gente fez uma tabela pregada no poste e varava a noite. A gente está tentando lutar contra essa história de destruir a quadra. Esse projeto foi aceito pela Caixa Econômica, parece que o dinheiro já está em caixa e só falta a execução. Vão meter o trator lá e derrubar tudo. A gente já tentou de tudo. Tá muito difícil, cara. Tá complicado…”

Os episódios mais marcantes, para ambos, era a revitalização voluntária da quadra. Com o dinheiro que tinham e também não tinham, como diz Paulo, se reuniam para realizar a manutenção. Pintavam toda ela e ainda substituíam as tabelas. Um ponto histórico e cultural da cidade sendo renovado pelo povo, e que está prestes a ser derrubado pelo poder. Paulo fala com entusiasmo sobre essas experiências:

“É algo que me marca muito. Pra mim se tornou mais que uma tradição. Se tornou algo íntimo a vontade de revitalizar essa quadra. Com a revitalização que estamos fazendo agora, já é a quarta ou quinta que eu participo, isso fora as outras. É algo muito marcante pra mim porque não é só a questão de pintar a quadra, de cortar os matos, de varrer, de lavar, de trocar as tabelas. Não é só essa questão física. Mas essa questão emocional também e coletiva. Cara, é tão gostoso você tá no meio da sua galera trabalhando, dando de certa forma vida pro espaço o qual você passa muito tempo ou alguns momentos bons da sua vida, é indescritível. Não tem como eu expressar em palavras a emoção e a felicidade que eu tenho de revitalizar a quadra junto com a minha família do basquete. Com pessoas que eu cresci, que eu convivo, que trocamos experiências, felicidades, tristezas, ganhos, perdas”.

Arquivo / Paulo Henrique Santos

Cláudio também nos detalhou esses processos de união pela “querida” quadra:

“A gente sempre consertou a quadra. Outros governos sempre deixou de mão essa parte de esportes. A gente tem essa cultura: se a gente precisa do espaço, nós mesmos resolvemos e consertamos. A tabela, por exemplo, a gente consertou muitas e muitas vezes. Já chegamos a catar placa de trânsito, sabe aquelas placa de ‘pare’? A gente colocava ela na frente com o parafuso atravessando para poder pra pegar na base da tabela e prender o aro, porque a madeira já estava podre, aí fazia tipo um sanduíche da placa com a tabela pra poder utilizar. Essa manutenção era tudo a gente que fazia. Pegava uma escada emprestada no ginásio, subia, desparafusava, com muita dificuldade e sempre fazia. Tinha dois colegas que sabiam fazer a redinha; a gente conseguia aquele cordão e eles faziam a rede. Sempre tinha alguma coisa a se fazer pela quadra. Isso eu acho que foi legal, porque trouxe mais união ao pessoal do basquete, uma coisa que eu não vejo muito com a galera nova que tá. Não tem mais essa gana de consertar e pedir ajuda. Essa reforma que a gente conseguiu foi na maioria do pessoal das antigas que ajudou, né? Muita gente deu dinheiro pra comprar tinta, pincel, rolo, todo tipo de material necessário pra fazer a reforma”.

Antes, a quadra colecionava buracos e as tabelas estavam deterioradas. Tamanha união se consolidou em um time da cidade. Um time multivencedor. E é dele que falaremos a partir de agora.

Arquivo / Paulo Henrique Santos

O Basquete Ocidental levantou muitos troféus

O time nasceu de “forma natural”. As pessoas que chegavam a Superquadra 13 se identificavam com a avidez pelo basquete e a participação em campeonatos foi só consequência. E, como Paulo diz, não foi um simples passatempo:

“Começamos a procurar campeonatos, jogar com outros times e aí tivemos bons resultados. Fomos campeões da Copa BEG, Itaú, campeonato municipal, estadual, e ao longo dos anos fizemos muitas amizades: pessoal de Valparaíso, Santa Maria, Brasília, Luziânia, Jardim do Ingá. Tivemos oportunidades de treinar em Brasília, jogamos contra o time de Vizinhança, referência na época, também contra o Universo. A construção do time foi muito natural e tranquila. Deu uma mesclada entre o pessoal antigo, que ainda estava na ativa, e o pessoal mais novo que tinha o vigor, pra correr mais. Deu um bom time que trouxe algumas medalhas e troféus pra cidade, mas infelizmente não está sendo reconhecido essa história. Ocidental é um celeiro na questão de esportes, e sem apoio algum da prefeitura. São peladeiros que amam o que fazem”.

Arquivo / Paulo Henrique Santos

Em meio às dificuldades, o Basquete Ocidental mostrava o seu valor. Cláudio também ressalta esse ponto, dando destaque para o vice-campeonato nacional dos Hot Boys, os meninos do 3×3:

“Sempre procuramos juntar a turma para jogar em outros lugares. Já ganhamos várias vezes os Jogos Abertos de Goiás, e também nesse basquete de 3 tivemos colegas que ganharam o prêmio e foram disputar o nacional. O nosso time de basquete foi muito bom, né? Mas devido a rixas políticas, essas coisas, o prefeito anterior ajudava muito o basquete e acho que isso pode ter sido uma forma de tentar barrar a gente. Quer dizer, a gente tinha horários no ginásio de esporte. Tinha duas tabelas retráteis, hidráulica, tabela de acrílico, suspensão, tudo. E eu não sei por qual motivo eles começaram a destruir isso. Não sei se a prefeitura fez vista grossa… roubaram os pesos que ficam atrás da tabela, o mesmo que utiliza em academia. Chegou um ponto que a tabela ficou sem apoio. E por conta disso, a tabela caiu de bico, o aro amassou, o acrílico estourou e resolveram tirar. A outra tabela ainda funcionava. Eles tiraram essas tabelas e foram levadas para um depósito. Um dos colegas foi lá dar uma olhada e quando chegou, a tabela de acrílico tinha sumido e um aro também sumiu. Sempre foi uma luta, a gente conseguiu muita coisa com outras prefeituras: bolas, uniformes para treino… agora fomos esquecidos”.

No Instagram da equipe (@basqueteocidental), ainda há relatos de ex-integrantes da equipe sobre o descaso da prefeitura para com a equipe. Edgar, um dos fundadores, relata que mal tinham dinheiro para pagar alimentação, inscrição nos campeonatos, condução e uniformes. Kennedy, do 3×3, conta sobre a tradição do basquete na cidade, que o fez sonhar e alcançar com o alto patamar de basquetebol. São desses relatos e histórias de superação que se constitui o time.

Histórias além das quadras

No meio de tanta luta, os caminhos individuais dos ocidentalenses ainda sobressaem. Paulo relata sobre paixões hereditárias pela bola laranja:

“Um rapaz lá na cidade, mais antigo, jogava basquete com a gente e sofreu um acidente de moto. Passou por fisioterapia, cirurgia e ficou um pouco debilitado pra jogar. Ele ainda consegue jogar um pouco, mas bem pouco mesmo. O filho dele herdou essa paixão pela basquete, ele joga lá com a gente. É bem bacana, ele joga muito bem. Já na minha geração, meu irmão que foi o que começou a jogar primeiro do que eu e me incentivou, ele já tem dois filhos pequenos. Também já estão no início desse caminho, seguindo esses passos já, de pegar o amor pelo basquete e a vontade de ir pra quadra jogar”.

Arquivo / Paulo Henrique Santos

Cláudio, por sua vez, fala de uma experiência pessoal:

“Eu morava na quadra 19, que é uma área com alto índice de criminalidade. Tive muitos amigos com roubo, com tráfico. Tinha muita amizade com eles, então já cheguei a usar drogas, mas depois que comecei com o basquete eu larguei. Vi que aquilo não era pra mim, essa coisa de se envolver com isso. Pra mim, foi a melhor coisa. Tive a oportunidade depois de jogar em clube… Tem um aspecto social muito bom. Essa amizade que foi construída no basquete até hoje tá aí. A gente mantém um grupo e depois dessa pandemia a gente quer se encontrar pra jogar um basquete. Ao estilo que tinha antigamente: colocar um som legal e jogar até o joelho não aguentar mais”.

Assim como muitos jovens pelo país, Cláudio fez do basquete seu refúgio contra as drogas e a criminalidade. O esporte, em sua mais pura essência, é uma ferramenta de escape dos problemas latentes da nossa rotina.

“O esporte CONSTRÓI e não DESTRÓI”, como bem colocam os membros da equipe. Um país com potencial olímpico enorme, desde às capitais até a pequena Cidade Ocidental, ignora esse recurso de mudança social. Cabe a nós a reivindicação.

Arquivo / Paulo Henrique Santos

O maior confronto: contra a prefeitura da cidade

Mal sabiam eles que o maior adversário é exatamente quem deveria ser o maior aliado. O time uniu forças para reverter o quadro, com abaixo-assinado, seguidas tentativas de contato com o prefeito e busca de plataformas influentes do basquete nacional, como jogadores e competições. Nenhuma medida foi eficaz para evitar o avanço do projeto de demolição.

Tivemos acesso ao projeto completo da prefeitura. Em negrito, se destaca: execução de obra de ampliação, modernização e reforma de espaços esportivos no município de Cidade Ocidental. Os espaços esportivos, como pouco sabem (ou ignoram), são motivos de glória e orgulho para os 70 mil habitantes ocidentalenses. O campo society, como afirmam Cláudio e Paulo, poderia ser construído em outras áreas livres da cidade, mas a necessidade de obras políticas para a autopromoção instiga a demolição da histórica Superquadra 13, que se localiza em um ponto central. São mais de R$ 500 mil gastos contra a vontade de quem preza pelo esporte, e esses sequer são escutados. Por quê? Por que não ouvir quem precisa das quadras? O que fala mais alto do que o povo?

* Encontrei essa história em um comentário de rede social. Na hora, me conectei ao sentimento de angústia por essa injustiça. Por isso, clamo: vamos fazer barulho. Somos basqueteiros espalhados por um imenso Brasil tentando melhorar o quadro do nosso amado esporte. Um passo gigante é a defesa da história que já escrevemos, seja em grande escala, como nos mundiais conquistado da década de 60, ou menor, como na Cidade Ocidental. Convido-os para espalhar a #SOSBasqueteOcidental por toda a nossa comunidade e, principalmente, para a prefeitura da cidade. Apertando AQUI, você tem acesso direto ao Instagram da prefeitura. VAMOS, JUNTOS, PELO BASQUETE NACIONAL!