Por Matheus Gonzaga e Pedro Toledo (Layups & Threes)

Há uma crítica bem grande dentro da comunidade da NBA sobre analisar o jogo a partir das estatísticas, por não contarem sobre contexto e nuances. Quando o assunto são as estatísticas básicas: pontos, rebotes, assistências e a maioria daquelas que vemos nos boxscore comuns, eu concordo completamente: são números extremamente ineficientes em contar a história da partida e contemplar o desempenho das equipes e seus jogadores. Porém, os números fornecidos pelo nba.com (e outros sites) vão muito além disso: é possível verificar dados muito mais específicos e interessantes. Que tal entender quais jogadores se saem melhor infiltrando? Ou mais sofrem arremessando quando contestados? Será que um time passa a roubar menos bolas na ausência de certo atleta? Uma infinidade de perguntas pode ser respondida. É claro que isso não substitui uma análise de vídeo dos jogos, mas é algo complementar: os números nos permitem entender e verificar aspectos que percebemos ao assistir os vídeos, e tentar ver o que os explica. Neste texto, vamos falar de dois dos times mais notórios da temporada – um para bem e um para mal – e analisar pontos centrais de seu jogo a partir de um olhar mais analítico e de dados. 

 

A força defensiva e a versatilidade ofensiva do Utah Jazz

A maioria das pessoas (eu incluso) não esperava, ao início da temporada, que o Utah Jazz liderasse a Conferência Oeste. O elenco de Utah sempre foi visto como forte, mas muito aquém dos times de Los Angeles (Lakers e Clippers), especialmente após a frustrante temporada anterior. Apesar dos reforços na offseason, a equipe de Salt Lake City foi apenas a sexta colocada e teve a 11ª defesa da liga (após ter sido a segunda em 2018/19), culminando numa amarga queda na primeira rodada dos playoffs, apesar do show de Donovan Mitchell.

Este ano ,porém, o Jazz teve um grande salto de qualidade, voltando a ter a defesa número 2 da NBA, e agora tendo a quarta maior eficiência ofensiva:116 pontos por 100 posses de bola (a título de comparação, é uma marca maior que a do Dallas Mavericks do ano passado, detentor até então do maior número da história da liga). Mas, como um time mantendo praticamente o mesmo elenco cresceu tanto de um ano para outro?

Primeiramente, vamos falar da defesa: a razão primária do grande sucesso defensivo da equipe é a proteção de garrafão: o Jazz é um dos dez times que cede o pior aproveitamento de adversários na área restrita, também forçando os adversários muitas vezes a arremessarem na chamada floater range (isto é, a parte mais distante do garrafão) ou na mid range, onde acertam 38% das tentativas. O motivo disso é bem claro: Rudy Gobert. O pivô francês é o segundo jogador da liga que mais contestou arremessos no aro e cedeu apenas 50% de aproveitamento de seus adversários nessas condições (nono  melhor número da NBA). Adversários, portanto, temem atacar a cesta de Utah, optando por arremessos mais difíceis e menos valiosos, como floaters e pull ups dos cotovelos, que ainda assim são contestados por vezes graças à leitura de jogo e à gigante envergadura de Gobert.

Outro mérito da defesa de Utah está no perímetro: a equipe cede apenas 6.6 tentativas de arremessos da zona morta (uma das regiões de arremesso mais eficientes da liga) por jogo. Além disso, por mais que permita uma quantidade média de tentativas do arco para equipes adversárias, eles têm acertado apenas 33.4% de seus chutes.

Antes que o torcedor do Jazz se empolgue com esse número, vale ressaltar que há possivelmente uma questão de acaso envolvida – o aproveitamento de oponentes em arremessos totalmente livres tem sido de 33%! Isso quer dizer que os erros dos adversários podem ser simplesmente uma questão de sorte. Vale ressaltar porém, que também é possível que a equipe esteja sendo inteligente e deixado apenas jogadores de baixo aproveitamento livres.

No ataque, há um fenômeno inverso: o Jazz é o segundo time que mais gera bolas de 3 completamente livres, e as converte com mais de 40% de eficiência! Os arremessos do perímetro de Utah não são só certeiros, mas são inteligentemente usados em altíssimo volume, maximizando o ataque da equipe. Esses arremessos são  com muita frequência vindos do drible: o Jazz é o segundo time que mais tenta pull up threes na NBA – algo que tem sido altamente produtivo (Utah tem o terceiro melhor aproveitamento nesses arremessos), graças às performances de jogadores como Mike Conley (38.6% em 3.8 tentativas), Jordan Clarkson (39.2% em 3.6), Joe Ingles (43.8% em 2.1) e Bogdan Bogdanovic (46.5% em 1.6). Ter essa grande quantidade de jogadores capazes de gerar seus próprios arremessos e converter em alto nível cria um ataque letal e versátil, onde quase qualquer um pode ser responsável por ações de criação ofensiva. 

Complementando essas peças, temos Donovan Mitchell, que por mais que não tenha sido bom criando seus próprios arremessos de 3 (33% em pull ups) nem sendo excelente em infiltrar (1.08 pontos por arremesso), tem acertado incríveis 47% de seus arremessos de catch and shoot, não podendo ser deixado livre de forma alguma, e Rudy Gobert, possivelmente o melhor roll man da liga, com 1.36 pontos por arremesso partindo para a cesta através do pick and roll.

É curioso que os motores do ataque do Jazz não são os jogadores amplamente considerados seus dois melhores (Mitchell e Gobert), mas sim seus versáteis jogadores que são capazes de criar e de jogar sem a bola: Conley, Clarkson, Ingles e Bogdanovic.

 

O Washington Wizards e a queda de Russell Westbrook

Acabamos de falar da melhor campanha da NBA: nada mais justo que agora falar de um dos piores times da liga. Havia uma certa expectativa sobre esse time do Wizards: Bradley Beal foi um dos líderes de pontuação da liga temporada passada, e Russell Westbrook, apesar de polêmico e divisivo, é um jogador sem dúvidas talentoso. Junte a isso a presença de um arremessador como Davis Bertans e jovens com certo potencial como Rui Hachimura e Deni Avdija e temos um time que no mínimo brigue pelos playoffs, certo? A resposta foi um estrondoso não. A equipe de Washington tem a pior campanha da Conferência Leste, amargando apenas sete vitórias em 24 jogos. O que causou esse péssimo desempenho?

Boa parte dos fãs de NBA atribuiria boa parte dessa responsabilidade a Russell Westbrook, e… eles não estão totalmente errados. Eu não sou hater de Russ e vejo uma quantidade de talento incrível no armador, que já teve excelentes temporadas em sua carreira. Mas hoje, ele possivelmente tem sido o pior jogador ofensivo da liga. Quero deixar bem claro que com pior não quero dizer menos capaz, Westbrook é um dos armadores mais habilidosos da liga! Mas seu impacto negativo tem sido gigantesco: como dissemos na última coluna, arremessar em alto volume quando você é ineficiente te torna prejudicial para a equipe – e o armador de Washington é um dos que mais faz isso. No gráfico abaixo, mostramos nosso modelo de pontos adicionados individualmente com todos os jogadores da liga:

 

 

Dentre os jogadores de alto volume mostrados no gráfico, Russ é o jogador que mais piora o desempenho ofensivo de sua equipe ao tentar arremessos: algo que não é surpreendente se vermos outros números: além de acertar apenas 32% das bolas de três (o que é até uma marca boa se formos comparar com os últimos anos), ele insiste em arremessos tenebrosos de mid range – é o segundo que mais os tenta em toda a liga, e acerta terríveis 35.5% das tentativas. Finalizando no aro, ele tem até sido eficiente (acerta 64% das tentativas na área restrita), mas tem tido dificuldade de chegar até lá – são apenas 4.3 arremessos na região por partida, contra mais de dez na temporada passada.

Além disso, o problema de turnovers está mais grave que nunca: são 4.9 por jogo, segunda maior marca da carreira, e dessa vez nem sua produtividade como passador tem compensado – são  1,81 assistências por turnover, marca bem insatisfatória.

Com esses números, não é surpresa nenhuma que o ataque de Washington melhore muito sem o armador em quadra – indo do tenebroso 103.1 de eficiência ofensiva com Russ para 110 sem ele. Mas 110, não é uma marca boa (seria o 20º ataque da liga). Então, quem seriam os outros responsáveis por isso?

Bom, o time quase todo. Bertans tem acertado apenas 33% dos arremessos de três pontos e jogadores como Hachimura e Ish Smith estão também na parte negativa no gráfico de eficiência de arremessos já mostrado. 

Bom, agora vamos ao ponto mais polêmico do texto – pelos números, a temporada de Bradley Beal não é uma das melhores da NBA ofensivamente. Sim, é uma excelente temporada e sim, é sem dúvida alguma o maior responsável pelo ataque de Washington não ser vergonhoso. Beal tem levado o ataque do Wizards nas costas, a questão é que para onde ele leva é um ponto mediano. Vendo o gráfico de PAI, Beal tem uma eficiência média: então quanto mais ele arremessa, mais o Wizards se aproxima do 15º/16º ataque da liga. É com certeza muito melhor que a situação atual da equipe, mas não é como se os arremessos de Beal e sua produtividade isolada sejam de nível top 5 ou top 10 da liga.

É claro que isso diz mais sobre o contexto do time do que sobre o talento de Bradley: ele tem tido eficiência média, pois na situação que está é forçado a tentar arremessos extremamente difíceis: o ponto é – esse tipo de arremesso é incapaz de levar um ataque a um nível alto. De qualquer modo, Washington não tem muitas alternativas.

Falando agora da defesa – onde Washington é o segundo pior time da liga –  a equipe tem um mérito – ninguém cede menos arremessos dos adversários na área restrita e mais na parte distante do garrafão e na meia distância (arremessos sabidamente ineficientes – apesar de que contra eles, equipes acertam quase 50% em ambos). O problema é a bola de três pontos. Os adversários tem um volume moderado de bolas de três totalmente livres contra eles, mas acertam 44%! É o inverso do caso do Jazz, e traz um dilema parecido: talvez o Wizards seja o time mais azarado da história ou, talvez eles estejam deixando arremessadores excelentes livres. Provavelmente, é uma combinação de ambos: de qualquer modo, a defesa de Washington, apesar do péssimo desempenho, talvez seja um pouco melhor do que se pensa e esteja relacionada a um fator de aleatoriedade.

 

Ao Redor da liga

Há muito mais destaques estatísticos na NBA do que o que abordamos: falamos apenas sobre dois times de um total de 30, cada um com suas peculiaridades a serem exploradas. É completamente inviável escrever sobre todos, mas irei mencionar alguns outros números notórios que, durante o processo de escrita do texto e outras análises, eu percebi:

  • Joel Embiid tem sido o melhor pontuador da NBA combinando eficiência e volume – são sobre humanos 1,33 pontos por arremesso em 22.27 tentativas verdadeiras de arremesso (FGA+shooting fouls sofridas, aproximadamente).
  • Apesar de uma campanha muito melhor, o Sixers ainda tem problemas ofensivos: apesar de avassaladores com Embiid em quadra (eficiência ofensiva de 118 – seria a segunda melhor marca da NBA), a equipe sofre muito nos minutos sem o camaronês (eficiência ofensiva de 102 – seria a pior marca da liga), culminando num desempenho ofensivo bem mediano.
  • O Sacramento Kings tem cedido 116.9 pontos por 100 posses de bola – pior marca da história da NBA.
  • Myles Turner não só lidera a NBA em tocos – também é o jogador que mais contesta arremessos no aro em toda a liga e permite apenas 44.5% de conversões para oponentes perto da cesta (segunda melhor marca da liga, atrás apenas de Jakob Poeltl)
  • Kyrie Irving, Kevin Durant e James Harden são três dos 20 jogadores que tentam no mínimo três jogadas de mano a mano por partida – e são respectivamente o primeiro, o segundo e o quarto mais eficientes, com 1.32, 1.25 e 1.16 pontos por arremesso. 
  • Giannis Antetokounmpo a cada evolui mais como finalizador na área restrita – agora acertando absurdos 78.6% de suas quase dez tentativas a cada jogo.
  • Andrew Wiggins não é mais um dos pontuadores mais ineficientes da liga! Nesta temporada, ainda que se mantenha no negativo, o ala de Golden State não tem mais um dos menores números de pontos adicionados individualmente da NBA, estando agora bem próximo da média.

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